A perda e as fantasias de culpa que aparecem
Diante da perda, deixar ir pode voltar como fantasia de culpa. Como isso pode acontecer?
Deixar ir é compreender no coração que aquela perda ocorreu. Brigo com isso internamente como uma maneira de mudar o final da história. E esse final seria a perda não ocorrendo e a vida seguindo, como era e como sempre foi.
Mas o impacto do perdido, do modificado, faz me agarrar em algo e escolho me culpabilizar, pois só assim está nas minhas mãos a trama que tem o poder de alterar o caminho, de traçar novos desfechos, sem perder o que me era tão precioso.
Como se fosse uma tentativa de não me culpar e replicar de volta. Voltar ao que era, ao que não vi que passou. Punição, talvez, por deixar ir...
Esqueço que o comandante de muita coisa não sou mais eu, ou nunca fui. Conseguir ver além do que enxergo à mercê de aprendizados custa muitas reflexões.
No meu coração deixei ir meu amado para outra vida. Posso me culpar de várias maneiras: por que não falei que o amava; não fiz o que ele desejava (seja uma refeição especial, um agrado algumas vezes solicitado, entre outras inúmeras alternativas). Até porque tive um pequeno desentendimento com ele alguns dias antes da sua partida. Disse-lhe não para algo. Ou outra perda aleatória: um imóvel, a distância de um amigo, uma doença irreversível quando já tive em minhas mãos o me cuidar mais.
O amor não se mede com os últimos dias, mas com o afeto de uma vida inteira juntos, ou com a dedicação empenhada.
Esqueço que a vida/morte dele não estão nas minhas mãos.
Soa como “eu poderia tê-lo aqui comigo”. São ilusões que alimento para de alguma forma poder mantê-lo comigo, mudar o final do que aconteceu. Nem que seja somente no desejo de mudar o que ocorreu.
Até porque atrapalhações diante da perda existem. Muitas estão presentes no coração cansado, na tristeza presente, no não saber como direcionar. Estou tentando lidar com mais amor comigo mesmo e com minhas perdas para poder amenizar algumas fantasias de culpa... E você?
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