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A comunidade: lugar de vivenciar o Evangelho

Miguel Debiasi

Na sociedade contemporânea está em primeiro plano a valorização do indivíduo. O que importa é a felicidade do indivíduo, às vezes vivida por relações frenéticas e superficiais. Os compromissos religiosos são deixados em último plano. Nesse contexto pergunta-se: qual é o espaço para os cristãos viverem a alegria do Evangelho? A superação do individualismo remete à reflexão sobre o significado da comunidade.

Jesus, para anunciar o Evangelho, precisou constituir a comunidade dos apóstolos: “ele foi à montanha para orar e passou a noite inteira em oração a Deus. Depois que amanheceu, chamou os discípulos e dentre eles escolheu doze, aos quais deu o nome de apóstolos” (Lucas 6,12-13). A iniciativa de Cristo formar comunidade inspira a Igreja a cuidar dos fiéis, muitos hoje dispersos por influência do espírito moderno. Na perspectiva de Jesus todo o trabalho pastoral da Igreja invoca a formar comunidade de irmãos que amam e servem: “Se, portanto, eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros” (João 13,14).

Em mentalidade moderna os projetos individuais são superiores à consciência de comunhão. Nessa ideia, pode-se dizer que o santuário da vida é a pessoa em sua individualidade, um valor inalienável de modo a diminuir o significado da comunidade. Ao considerar o enfraquecimento do sentido da comunidade o teólogo José Comblin (1923-2011) diz que os cristãos estão associados à comunhão. A Igreja ou os cristãos estão associados à vida dos convocados, pessoas que creem em Jesus Cristo e que formam a comunhão (koinonia), comunidade.

A comunhão é a identidade da comunidade cristã. A comunidade torna-se o espaço do evento pascal, do derramamento do Espírito que gera para o mundo a Igreja. Isto é, a comunidade dos seguidores que se reúne e que “havia criado um só coração e uma só alma” (Atos dos Apóstolos 4,32). Na experiência de comunidade os cristãos estabelecem relação com o mundo e com a sociedade. Pode-se dizer, assim, que a Igreja desejada por Deus, fundada na fé em Jesus Cristo e fiel aos ensinamentos dos apóstolos, encontra na comunidade seu espaço para viver o Evangelho.

A propagação do cristianismo e do Evangelho se deu pelo testemunho da comunidade chamada de paróquia. Na Bíblia aparecem três palavras ligadas ao sentido de comunidade-paróquia: o substantivo paroikía, significando estrangeiro, migrante; o verbo paroikein, que tem vários significados, como viver junto a, habitar nas proximidades, viver em casa alheia, em qualquer parte, em peregrinação (Lucas 24,18); e a palavra paroikía, usada tanto como substantivo quanto como adjetivo. No entanto, a palavra paróquia derivada do termo grego paroikía é uma junção da preposição pará, que significa do lado de, perto de, junto de, com o substantivo oikía, traduzido por casa. No costume romano, a casa (oikos) formava uma comunidade de direito doméstico, uma igreja.

Mesmo se admitindo ser essa a origem da palavra e significado de paróquia, associado a uma relação familiar ou comunitária, esta comunidade-paróquia está sujeita à influência de seus contextos sociais e políticos. Isto é, a Igreja paróquia, em sua etimologia casa dos estrangeiros, está submetida à condição de uma evolução histórica pelas influências dos próprios contextos. Noutras palavras, a paróquia é desafiada a uma ação pastoral adequada levando os fiéis a viverem em comunidade reunida na fé em Cristo e pelos ensinamentos do Evangelho.

Entre os muitos trabalhos pastorais da paróquia, um é formar comunidade para ajudar os fiéis a superarem o individualismo. Pois é da vocação cristã viver em comunidade. Na comunidade aprende-se a tenacidade do Evangelho, a ponto de superar situações difíceis como a individualidade e a soberania do individual. No fundo, é acreditar que o homem moderno nunca poderá viver sua fé e sua cidadania sem o auxílio da comunidade. Logo, a vida de comunidade é um lugar básico para o cristão e para a Igreja viverem no Evangelho.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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