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Ir e anunciar: loucura cristã e experiência de Deus

Marta Maria Godoy

Olhando para os acontecimentos atuais, podemos nos perguntar se é possível experimentar Deus, olhando para (e vivendo) situações como opressão, corrupção, enganação, exclusão, descaso, morte.  Mais: é possível caminhar-se para uma libertação? É possível ter esperança?  Há os que pensam em “experiência de Deus” como privilégio de alguns, incluindo experiências místicas, por exemplo. É uma forma, pode ser. Mas aqui quero me referir à passagem do Evangelho de Marcos, capítulo 16, versículo 15, em que Jesus diz para ir pelo mundo e dar o seu recado. Aí encaixo “experiência de Deus”: dar o recado de Jesus de Nazaré.

 Mas como fazer isso? As Escrituras estão repletas de pistas que nos dizem “como ir”; desde os profetas do Primeiro Testamento, até as palavras do próprio Jesus, no Segundo Testamento, dizendo “quem” pode ser seu seguidor... Antes de tudo, se faz necessário “descer a escada humana da promoção”, disse Jean Vanier, fundador da Arca. Fazer-se pequeno, avesso à competição, à posse, às proezas das posições importantes, ousar uma vida contracultural... Jesus se fez humano e foi extremamente contracultural, pregando um amor incondicional, é preciso que nos lembremos sempre disso. Conta-se que quando o Papa São João XXIII ia para a cama, costumava gracejar: “Deus, o Papa tem agora de ir dormir. Deixo-te o governo da Igreja”. Ele reconhecia que estava preso numa armadilha de amor, que ultrapassava sua imaginação... É preciso, pois, para esse “ir”, abandonar a cultura (tão atual!) do controle de tudo, abandonar nossas vidinhas, às vezes tão triviais, nas Poderosas Mãos de Deus. Caso contrário, jamais “iremos”, menos ainda “anunciaremos”!

Mas ainda resta perguntar: anunciar o quê? O Deus de Jesus Cristo, no clamor dos pobres, já deixou claro que quer nossa parceria de amor, quer que nos incomodemos com o que oprime, com o que exclui, com o que mata!  Jamais difundir um conjunto de ideias abstratas a Seu respeito! Diz Santo Ireneu: “A glória de Deus é o homem [inteiramente] vivo”. O amor de Deus – esse que devemos anunciar – é exigente, justamente porque é verdadeiro, e um amor verdadeiro é sempre transformador! Esse amor rejeita uma compreensão mecânica do mundo, em que tudo deve ser medido, avaliado, ponderado e julgado... Só então podemos aprender a gostar de “estar com Deus”, na sua amizade, para poder “ir” e “anunciar” essa amizade ao modo de Jesus... Se nunca saborearmos e virmos como Deus é bom, e isso só na experiência junto ao outro, a religião se tornará um dever aborrecido, duro, pesado, e jamais seremos protagonistas do anúncio da Boa Nova.

                Pois é. Seja qual for a forma que nossa vida cristã tomar, o compromisso de nossa adesão ao projeto de Jesus de Nazaré deveria virá-la inteiramente de pernas para o ar ou, pelo menos, sacudi-la um pouco... Precisamos ser pessoas tocadas pela loucura cristã, tornarmo-nos loucos por Deus, pela Sua Causa. Essas pessoas não precisam necessariamente fazer parte do clero ou de congregações religiosas. Li a respeito de um casal que, com seus filhos, há alguns anos, rumou para o Timor-Leste, a fim de trabalhar com os missionários de MaryKnoll, um sinal gritante dessa maravilhosa aventura de amor! Talvez precisemos inventar novas formas de loucura cristã!

Finalmente, nossa fé deve nos levar a desconcertar e intrigar nossos contemporâneos, mostrando como o apelo que Deus nos faz nos abala; nos atormenta, até, às vezes, para nos renovar. E nos renova. Então iremos e anunciaremos.

 

 

Sobre o autor

Marta Maria Godoy

Religiosa consagrada. Graduada em Letras. Pós-graduada em Linguística Aplicada - Leitura e Produção textual. Mestranda em Teologia pela EST/S. Leopoldo, na área de Teologia Prática.

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