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A inveja

Gilmar Zampieri

 

A inveja é o pecado contra a caridade. A caridade é uma virtude. A inveja é um vício. O caridoso se alegra com a alegria, sucesso e felicidade do outro. O invejoso, não. O invejoso não suporta ver a felicidade do outro sem perturbar e entristecer a sua alma. A inveja é o pecado da tristeza pela alegria do outro. 

A inveja, “invídia” em latim, é um vício e significa, literalmente, “olhar com malícia”. O olhar malicioso mira o feliz e o brilho dos olhos do invejoso se apaga e seu corpo murcha. Diante de alguém bem-sucedido a alma do invejoso se agita. O invejoso se entristece na presença de alguém que tem dons e qualidades, beleza e inteligência, bem-sucedido, amorosa e financeiramente. A única alegria do invejoso seria transformar em sofrimento a alegria do outro. 

Cuidado! A inveja não é desejar ter o que o outro tem. Desejar ter o que o outro tem é cobiça. A cobiça tem lá sua positividade por obrigar o cobiçoso a trilhar o caminho do trabalho, da iniciativa e do empreendimento para ser bem-sucedido também. A cobiça faz o seu portador trabalhar e empreender para ter o carro, a casa ou qualquer dos bens que o vizinho ou amigos têm. A cobiça tem seu lado positivo, estimulante e provocador.

A inveja, não. A inveja sempre é negativa e envenenadora. Ela não faz o indivíduo transcender e querer ser e ter mais. O invejoso vê no outro algo que ele gostaria de ter, mas não tem e, por isso, se entristece e passa, não raramente, a odiar, maldizer e tramar contra o outro. É o efeito “olho gordo”. A inveja é destrutiva e a tudo envenena. Ao invés de melhorar a si mesmo, a inveja incita a diminuir e até destruir o outro. Aí está o seu pecado!

O pecado da inveja é o um pecado envergonhado. O invejoso não se assume como invejoso. Somos capazes de nos vangloriar do pecado da luxúria, gula e até da avareza, mas a inveja gera desconforto. Todos nós nos achamos vítimas da inveja alheia, todavia não admitimos e não confessamos a própria. Se confessássemos, estaríamos munindo o outro de armas contra nós mesmos e isso nos deixaria ainda mais fracos e tristes. Mas no fundo, bem lá no fundo, somos todos invejosos. Ou será que alguém é imune a esse pecado capital? 

Quem se achar imune pode ser que seja por autoengano, ou por disfarce. Autoengano, disfarce ou, às vezes, inconfessável maldade. A maldade do invejoso faz com que ele não se aguente e destile seu veneno mortífero contra o invejado, minimizando ou diminuindo as suas conquistas. As formas de fazer isso são variadas e sutis. 

Diante de alguém jovem, bonito/a e com notável sucesso na carreira e na vida amorosa, aumenta o seu salário, ganha um prêmio ou uma honraria, compra uma casa na praia ou compra um carro melhor, qual a atitude do invejoso? Alegra-se junto ou disfarça a própria tristeza dizendo, com boa dose de maldade, destilando veneno: “dinheiro e bens materiais não são tudo, bom mesmo é ter saúde”...! Ou então: “os bens matérias passam, tudo passa”...! Ou ainda: “Não se apega a essas coisas, coisas exteriores pouco importam, o que importa é a riqueza interior”...! Ou ainda: “A beleza e a juventude são passageiras, o essencial é invisível aos olhos”...! Inveja disfarçada, ou sutil maldade...! A felicidade alheia é insuportável. E quanto mais próximo o outro, maior é a inveja. Se for entre irmãos então...!

Como não evocar, aqui, os casos bíblicos de Caim e Abel e do filho mais velho da parábola do Filho Pródigo? A inveja causa tristeza e envenena seu portador ao ponto de desejar, não só fazer gracinhas e ironias, mas até matar o invejado. A inveja mata! É o caso de Caim que mata Abel, seu irmão mais novo, pelo simples fato de Deus ter-se agradado da oferta das primícias e das gorduras das ovelhas do pastor Abel, porém não ter-se agradado da oferta dos frutos da terra do agricultor Caim. A narrativa não deixa claro porque Deus se agrada de uma oferta e não da outra. Aparentemente não há motivo. Mas a narrativa deixa claro que o que motivou o primeiro assassinato da história foi a inveja. Caim achou insuportável o sucesso e o reconhecimento de seu irmão. O texto diz que Caim “ficou irritado e abatido” e descarregou sua ira e tristeza, não cobrando explicações a Deus de porque não gostou da sua oferta, mas matando o irmão sem que este tivesse alguma culpa aparente. Tudo por inveja. A inveja mata!

Na narrativa do filho pródigo, o filho mais velho não mata o filho mais novo, o esbanjador, quando retorna à casa do pai e este lhe prepara uma festa de arromba. Contudo, não haveria motivo do filho mais velho não se alegrar com o retorno do seu irmão que estava perdido, mas ao invés de se alegrar com a alegria do irmão, entristece-se profundamente e reclama do pai que ele sim merecia uma festa e não o filho gastão e perdulário. Inveja, pura inveja!

A inveja é o pecado do olhar malicioso e envenenador. Não sem razão Dante, na Divina Comédia, coloca os invejosos num círculo do purgatório, amontoados na beira de um penhasco estreito e de abismo profundo, com um castigo deveras apropriado ao seu pecado. Eles estão impossibilitados de ver, pois suas pálpebras são fechadas e costuradas com fio de arame. Se o pecado entra pelos olhos, então que o castigo seja não ver. Parece justo! 

Como eu tenho medo de escuro e morro de medo de penhascos e abismos e não me passa pela cabeça passar uma temporada no purgatório, estou seriamente pensando em olhar para o bem-sucedido e dizer na cara: “ você não poderia moderar na felicidade não? Só um pouquinho, ajude aí...!”

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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