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Sobre o Perdão!

Gilmar Zampieri

Se um dia você errou feio com alguém, o mais dramático e dilacerador para a alma é não poder contar com o seu perdão. Deus perdoa, mas isso nem sempre basta para uma vida saudável. O perdão certamente liberta quem errou, mas liberta, também, quem perdoou. Aquele que não perdoa destrói a ponte sobre a qual ele mesmo deve passar. Pode ser que o que pecou sequer mereça o perdão, mas quem sofreu o mal merece a paz alcançada no perdão. Tente errar e não ser perdoado e tente ser vítima e não perdoar e saberá o que é sofrer...!

A filósofa Hannah Arendt diz que se não fôssemos perdoados seríamos reféns do passado e sem capacidade de ação que abre o futuro. Saber-se perdoado e saber perdoar desfaz os “pecados” do passado que, tal como espada de Dâmocles, pende sobre a cabeça do pecador. O perdão acerta contas com o passado assim como a promessa instaura o futuro. Nós, humanos, estamos eternamente nos movendo sobre o tênue fio do perdoar e o prometer. Entre o passado e o futuro. O perdoar nos salva do passado e o prometer nos lança para o futuro.  Sem perdão, não há promessa!

Perdoar-se a si mesmo é uma necessidade psicológica e tem a capacidade de poder fazer para si novas promessas, mas tanto o perdão quanto a promessa só têm poder redentor quando feitas e aceitas aos olhos dos outros, sobretudo da vítima. Perdoar-se e prometer a si mesmo, sem o outro, não tem poder e legitimidade e pode ser apenas uma falsa pacificação. Isso vale tanto de indivíduo para indivíduo quanto de um acontecimento que afeta um povo e sua história.

A nobreza da alma é a condição para o perdão. Perdoar é para os fortes, para os de espírito elevado e nobre. Os fracos e ressentidos preferem a vingança, caindo na vala comum do vitimador. Talvez por isso digamos que Deus é misericórdia e perdão e isso o faz Deus, grande e nobre. Um Deus ressentido e vingador seria um Deus mesquinho.

O ressentido toma veneno e espera que o outro morra. O que não perdoa e alimenta o ódio e a vingança procede da mesma forma, carregando o lixo tóxico que o praticante do mal lhe jogou sobre as costas. Perdoar é livrar-se do lixo.

Jesus e Francisco de Assis, sábios que eram, cada um a seu modo, deixaram gravado para toda a eternidade atitudes e ditos de perdão que são emblemáticas. Jesus perdoou sem medida porque, como psicólogo e especialista em alma humana, sabe que somos todos feitos de barro, frágeis e pecadores. O que nunca pecou, “atire a primeira pedra”.

Francisco de Assis, o que melhor se aproximou de Jesus, no belíssimo cântico das criaturas, reconciliado com toda a criação e até com a morte, eleva em louvor a Deus os que perdoam e vivem na Paz: “Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por Teu amor, e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados os que sustentam a Paz, que por Ti, Altíssimo, serão coroados”.

Por fim, mas com igual importância, perdoar é mais fácil do que esquecer. Nem Deus exige esquecimento. Não esquecer é até um dever, para não repetir. Perdoar, contudo, já é um desejo de esquecimento sem o qual a alma não descansa em paz e em liberdade

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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