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O sentido da vida

Gilmar Zampieri

Albert Camus, filósofo e literato francês, disse com todas as letras que a única questão fundamental a ser respondida é: por que não me mato? Muita gente tem levado essa questão a sério e tem sucumbido. Os suicídios no mundo não param de crescer. Os que não sucumbem, onde encontramos a razão para continuar vivendo? Ou será que paramos de fazer as grandes perguntas da vida (quem somos, de onde viemos, para onde iremos, qual o sentido de estarmos aqui?) e simplesmente vivemos uma vida biológica igual a tantos animais não humanos que vivem felizes comendo, bebendo, dormindo, se reproduzindo e curtindo a vida?

As duas perguntas são incômodas, tanto a de Camus quanto a que acabo de formular. Eu prefiro pensar que a vida não se esgota na dimensão bio-lógica e ainda mantemos viva a dimensão espiritual que pode, de alguma forma, nos ofertar “sentido último” para continuar afirmando e confirmando a vida, mesmo nas condições mais adversas, injustas e degradantes. Nesse aspecto a religião e a filosofia são duas doutrinas de salvação exatamente por elaborarem, sistematicamente, aquilo que seria o essencial numa ordem hierárquica de valores, não só para viver, mas bem viver.

Do ponto de vista psicológico, Viktor Emil Frankl, judeu e psiquiatra austríaco, foi o que melhor formulou e estruturou uma ciência do sentido. E, em boa parte, pela sabedoria advinda da própria experiência. Ele experimentou a adversidade e o pavor em grau extremo, no campo de concentração Theresienstald, durante a segunda guerra mundial. Numa situação em que nenhum prazer da vida biológica lhe era possível, em estado de sofrimento e medo total, numa situação em que a morte era a mais incômoda das presenças reais, no inferno da banalidade do mal, sobreviveu e desejou permanecer vivo ancorado, não ao visível e sensível, que era terrível por todos os lados, mas ao invisível e ausente que da alma lhe alimentava a esperança, dando-lhe sentido e resistência. Ao seu redor, no campo de concentração, os que sobreviveram e conservaram a sanidade e dignidade, observava Frankl, o fizeram por alguma razão transcendental, da ordem do sentido, da ordem do dever e da missão, que lhes dava forças para não perder a identidade e a dignidade. E, sobretudo, lhes dava sentido para não desejar morrer.

 “Quem tem um porquê, então pode suportar quase qualquer como”. Frankl imortalizou essa frase nietzschiana e ela resume bem o que se estruturou em teoria psicanalítica, a logoterapia. A logoterapia é a cura pela estruturação da vida em torno de algo que lhe dá sentido. A dor, o sofrimento e a neurose, podem ser de ordem espiritual e intelectual, e não somente de ordem afetivo e sexual, como pensava Freud. O sentido, contudo, não é algo abstrato e metafísico, válido igualmente para todos, mas algo identificável como missão própria e intransferível, algo que é uma espécie de vocação, um chamado que só o indivíduo implicado pode responder. Não há humano que não tenha algo de sagrado que só ele pode preservar. Esse algo é o que lhe dá sentido. Não há nada de esotérico nisso, isto é, que só alguns possam acessar o sentido da existência. Não. O sentido da vida não é algo que temos, mas é ele que nos tem, a todos. Nem somos nós que o formulamos e o criamos, nós o recebemos e o reconhecemos.  E em todas as direções ele opera. 

Alguns reconhecem o sentido na fé e no dever de ordem religiosa. Outros, na fé e no dever de ordem moral. Outros na preservação das memórias e lembranças guardados no corpo e na alma. Outros, em alguma missão política e ideológica. Outros ainda, no humor, na beleza e no amor que nos tira da banalidade do mal e nos eleva para além de nós mesmos, aproximando-nos, como diz o salmista, muito mais dos anjos do que dos animais não humanos.

Alguém poderia objetar e dizer que a vida não tem sentido nenhum, mas não custa lhe dar algum. Não compartilho dessa ideia. Custa muito dar um sentido, onde a vida mesma não nos imponha um. Cabe a cada um/a prestar atenção em qual ‘o seu sentido’ que se oferece como graça e dom, mais do que como mérito e conquista.

 

 

 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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