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É tempo de florescer

Jaime Bettega

Alguns gostos não têm uma justificativa ou uma explicação convincente.  A pessoa simplesmente gosta. Talvez não seja necessário elencar razões pelas quais uma pessoa tem preferência por isso e a outra por aquilo. As várias gerações continuam afirmando: gostos, cores e amores não se discute. Nesse sentido é também possível contemplar os diferentes talentos que estão distribuídos entre as pessoas. Cada um tem uma especialidade, um dom, um ponto forte. Essa variedade, tão bem distribuída, é encantadora, remete ao mistério, ao infinito. Cada pessoa é única, ninguém se iguala. As semelhanças são traços externos, que nem todos percebem. Normalmente são os outros que destacam e elogiam determinadas qualidades. Nem todos se alegram com aquele dom que é seu e de mais ninguém. Não se trata de subir num pedestal e aguardar aplausos, mas de reconhecer uma particularidade que única e que confere uma distinção.

Sempre gostei da flor de ipê amarelo. Normalmente são cachos de flores. Quando o frio vai dando trégua, meu olhar não perde de vistas estas belas árvores que estão presentes em muitos espaços, inclusive nas ruas da cidade. Pensando bem, talvez o gosto mais intenso não seja apenas pela flor em si, mas pelo processo que o ipê é submetido até chegar à floração. Para tornar-se totalmente amarelo, ele necessita se desfazer das folhas, apresentar-se diante do inverno sem nenhum ‘agasalho’, balançar conforme o vento e aguardar o surgimento das flores. São etapas exigentes e, quem sabe, até doloridas. Mas o ipê aguenta tudo silenciosamente. Quando as flores desabrocham, certamente não se recorda mais do quanto dolorido fora aquele vento forte que tudo balançava. É bem verdade que alguns galhos menos resistentes, entre um ano e outro, acabam se desprendendo do tronco. É quase uma seleção que faz parte do ciclo da natureza.

A única observação que faço, em relação à grandiosidade do ipê amarelo, é que o tempo de duração das flores é relativamente curto. Dependendo das condições climáticas, o espetáculo com a harmoniosa tonalidade amarela dura poucos dias. As calçadas ficam imediatamente repletas de flores, semelhante ao um enorme e denso tapete. Não tem como ser diferente: o ipê floresce sem a autorização ou o toque o humano e suas flores permanecem no palco do universo por alguns dias ou por uns instantes. Isso me faz recordar e, ao mesmo tempo me desafia ao aprendizado, que a quantidade não tem a última palavra, mas sim a intensidade. Não importa quantos dias as flores ficam nos galhos do ipê, mas, sim, o impacto que as mesmas causam aos olhos daqueles que até param para observar ou ‘absorver’ tamanha perfeição. Não posso esquecer, no entanto, o longo e árduo percurso da árvore de ipê até se encontrar com o tempo certo para florescer. Como tudo seria diferente se as pessoas conseguissem se desprender de alguns galhos e de muitas folhas para abrir espaço para as flores da bondade, da espiritualidade, do amor e da solidariedade. Se tem vida, tem que ter flores. Não sei explicar porque gosto tanto do ipê amarelo.     

Sobre o autor

Jaime Bettega

Frei capuchinho, natural de Caxias do Sul, RS. Formado em Filosofia, Teologia e Administração de Empresas. Pós-graduado em Gestão de Pessoas e Administração, com enfoque na Espiritualidade nas Organizações, mestre em Ética Organizacional.
 

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