Você está ouvindo
Tua Rádio
Ao Vivo
05:00:00
Música e Informação
06:30:00
 
 

A ira

Gilmar Zampieri

A ira é o pecado contra a mansidão. A mansidão é uma virtude, a ira é um vício. A mansidão é a virtude da moderação e do equilíbrio emocional que evita a explosão incontida da ira. A ira é o pecado da perturbação e descontrole das paixões que desencadeiam a violência e a vingança. A mansidão é do bem, a ira é do mal.

A ira é o mais perigoso, devastador e mortal dos pecados capitais. Se a mansidão é o controle das emoções, a ira é seu descontrole total. O irado solta a fera que habita em cada humano e destrói, a um só golpe, a fina e tênue casca da racionalidade, sensibilidade amorosa e civilidade que protege o humano de seus primitivos desejos instintivos. A ira despe o humano da capa de civilidade que o protege e, desnudado, regride, instintivamente, ao estado de natureza, onde as paixões imperam. A ira libera o animal que habita nos porões do nosso inconsciente coletivo e, quando isso acontece, é melhor sair da frente!

A ira cega os olhos da alma, endurece o coração, ruboresce a face, enrijece os nervos e parte para o ataque. A ira não conhece o recuo e não toma distância e ponderação. A ira é abrupta e faz o agente agir movido pelo sangue fervilhando. O irado move-se, irracionalmente, pela sede de vingança ou por algum tipo de medo. Aí está o seu pecado. Se não fosse por vingança ou por reação instintiva ao medo, a ira não seria pecado. Sim, pois existe a ira santa e esta não pode ser pecado, visto que é santa.

A ira santa é uma pulsão instintiva, instalada, naturalmente, no corpo e na alma, que salvaguarda os bens morais e espirituais da sua violação e reage quando da violação. Nesse aspecto a iracúndia é uma espécie de “cão de guarda” que nos protege da banalização do mal. A bíblia é prova de que a ira tem um lado bom, um lado do bem, quando até Deus perde a paciência.

O que faz a ira ser santa? Poucas ocasiões fazem a ira ser santa, mas em todas elas o que está em jogo é algo essencial a ser preservado, o amor a Deus e ao próximo.

Foi por ira que Deus expulsou Adão e Eva do paraíso, enviou o dilúvio e destruiu Sodoma e Gomorra. Foi por ira que Moisés matou um egípcio que, diante dele, tinha matado um seu irmão Hebreu. Foi por ira que o mesmo Moisés despedaçou as tábuas da Lei ao ver o povo adorando um bezerro de ouro.

Foi por ira que Jesus toma um chicote e expulsou os vendilhões do templo. Em todos os casos está a preservação do sagrado moral e espiritual. Não se pode deixar que o essencial seja corrompido sem uma reação irada. Há situações em que a mansidão é covardia e capitulação. O “dar a outra face”, “amar os inimigos” e “abençoar os que amaldiçoam” é uma racionalização e uma pedagogia da libertação necessárias e revolucionárias, porém, em determinas circunstâncias, não dá para conversar e se entender mansamente e, nesses casos, a ira é santa, mas só em casos muito especiais. Nesses casos especiais a ira tem uma causa boa e, então, como diz Tomás de Aquino, “essa ira se chama ira por zelo”, desde que submetida à razão.

O que te deixa irado? O que te deixa irado diz muito de quem és. Se a ira for um desejo inconfesso de vingança planejada, és um vulgar vingativo. Se a ira for uma atitude rotineira diante de qualquer contratempo, então, és um humano banal. Se a ira te assalta somente na defesa dos próprios interesses, porém não na defesa de grandes valores da justiça e do bem comum, então, és, simplesmente, egocêntrico. Contudo, se a ira se manifestar na hora da preservação do essencial e do inegociável, lá onde a palavra e a mansidão não alcançam, então, és, simplesmente, mental, moral e espiritualmente saudável.

Jesus é a referência definitiva em relação a esse pecado capital, aliás, via de regra, de todos os pecados capitais. Nele se manifesta a ira santa de uma forma exemplar e ninguém duvida que fez a coisa certa ao perder a paciência diante da corrupção que tinha se instalado no templo. Contudo, se ele agiu de maneira irada nessa ocasião, agiu com mansidão e humildade em todas as outras. Os mansos são bem-aventurados e herdarão os céus. Os que agem sem pensar, com violência e vingança herdarão o quarto círculo do inferno, como nos diz Dante na Divina Comédia.

 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

Enviar Correção

Comentários

Newsletter Tua Rádio

Receba gratuitamente o melhor conteúdo da Tua Rádio no seu e-mail e mantenha-se sempre atualizado.

Leia Mais