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Subsídios Exegéticos para o dia da Sagrada Famiia

por João Romanini

domingo 26 de Dezembro, Ano C

Foto: Divulgação

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL - ANO C

 

Dia 26 de dezembro de 2021 - Sagrada Família

Primeira Leitura: Eclo 3,3-7.14-17a

Salmo: 127,1-5

Segunda Leitura: Cl 3,12-21

Evangelho: Lc 2,41-52

 

O Evangelho

O seguinte relato apresenta dois destaques nítidos. No primeiro, resplandece a inteligência de Jesus (v. 46s.). O templo é trazido de volta à sua natureza como um lugar de ensino e da revelação. O que já havia sido evocado no v. 40 aqui fica bastante evidente: enquanto João no deserto aguarda a anadeixis, manifestação (Lc 1,80), Jesus antes mesmo sua aparição pública é plēroumenos sophia, pleno de sabedoria. Mas a culminação é constituída pela manifestação da obediência de Jesus como Filho. A partir daqui a luz é refratada sobre todos os predicados anteriores da obediência de Jesus - em última análise inadequados - encontrados na história da infância, que agora começam a brilhar com uma nova luz; especialmente o título “Filho” de 1,32-35 adquire nova e mais profunda luminosidade.

Nesta passagem aparece o significado de toda a história da infância de Lc 1–2, porque nela a filiação divina de Jesus é manifestada. A perícope quer deixar evidente quem é aquele de quem notícias seriam dadas querigmaticamente no resto da história: o “Filho” do Pai. Lc 2,41-52 torna-se assim um vigoroso “final” de todo o prelúdio constituído por Lc 1–2.

A narrativa é dividida em três partes: introdução (v. 41-45) seguida pela parte principal (v. 46-51), enquanto v. 52 fecha a história.

Esta história da infância de Jesus não tem paralelo nos evangelhos canônicos. Esta breve vinheta permite que Lc faça uma transição menos abrupta desde o nascimento de Jesus ao seu ministério. Em 1,80 Lc dedicou uma única linha para resumir a vida de João no deserto à espera do ministério de Jesus. Neste episódio, Lc oferece ao leitor/a uma visão muito mais ampla do tipo de “crescimento” de Jesus.

Do ponto de vista puramente literário, a perícope mostra todo o domínio narrativo de Lc: a perda de um filho durante uma festa com o consequente aperto no coração de seus pais; a busca frenética; a fala do adolescente que quer estabelecer distâncias; a incapacidade dos pais em compreender um mandado que para o jovem é uma coisa natural – todos esses elementos são esboçados com economia de palavras e com uma penetração psicológica incomum. Quais são os/as leitores/as que não sentem como seus a surpresa, angústia e confusão dos pais, ou a tensão experimentada pelo adolescente entre dois sentimentos opostos, entre os pais dedicados e cuidadosos e o impulso para uma vocação superior?

v.41: Eles iam todos os anos: o imperfeito indica uma ação habitualmente repetida. O “de acordo com o costume” do versículo seguinte reforça este senso de prática habitual.

v.42: Quando ele tinha doze anos: a indicação da idade provavelmente quer marcar a época em que Jesus assumiu as responsabilidades religiosas dos adultos. De acordo com a tradição judaica a criança de treze anos estava pronta para guardar os mandamentos, e o menino de doze anos tornava-se responsável pelos votos pronunciados.

v.44: na caravana: O termo synodia sugere uma peregrinação coletiva que consiste em um grupo de parentes e conhecidos da mesma região.

v.46: ​​Após três dias: Podemos ver uma alusão à ressurreição, embora Lucas nas previsões da paixão use a expressão tritē hēmera (9,22; 18,33) em vez daquela usada aqui.

v.47: “ficaram estupefatos”: o termo existēmi é frequentemente usado por Lucas para descrever várias reações emocionais particularmente intensas, como em 8,56; 24,12.

v. 48: “ficaram perplexos”: como existēmi, mas talvez ainda mais forte, o termo ekpléssó expressa uma forte reação emocional (cf 4,32; 9,43). O termo quer expressar a surpresa e admiração contidas na pergunta de Maria, a qual, no entanto, Jesus não leva em consideração em sua resposta.

“Angustiados”: Lucas usa o verbo odynaomai para o sofrimento físico e moral (16,24-25). Nesse caso, o termo dá a ideia de uma ansiedade profunda. Embora seja tentador ver na expressão um cumprimento imediato da profecia feita a Maria em 2,35, este episódio afeta ambos os pais.

“Estávamos procurando por você”: o conteúdo desse diálogo se assemelha ao do túmulo vazio em Lc 24,5.

De acordo com Lc Jesus menciona seu Pai na primeira (2,49) e na última palavra (23.46).

v.50: e eles não entenderam: A incapacidade de compreensão por ocasião da primeira visitação messiânica é um elemento temático em Lc (8,10; 9,45; 18,34).

v.51: “e estava submetido a eles”. Note-se a força contínua do imperfeito en. A leitura de Eclo 3,7: “Quem teme ao Senhor honra seus pais”, oferece uma boa janela veterotestamentária para a compreensão do relacionamento familiar.

A conjugação perifrástica hypotassomenos (sempre submisso) faz ver de maneira muito eficaz a diuturna e amorosa submissão que assinala de maneira nova o episódio anterior, apenas narrado, que poderia parecer um desejo de autonomia e independência (cf., Lc 10,17.20). “A mãe guardava todas essas coisas [palavras]”. Aqui e em 2,50 usa-se o termo rhēma, com uma versatilidade que é possível significar tanto “palavra” quanto “coisas”. O verbo “guardava diligentemente” (diatērein) tem aproximadamente o mesmo sentido de “conservava” (synetērei) em 2,19.

v.52: “Jesus crescia”: o termo prokoptein tinha o significado técnico de crescimento na vida moral e intelectual. O termo hēlikia pode significar idade ou estatura; em 19,3 Lc o usa para estatura. A graça (ou favor, charis) desfrutada por Jesus perante Deus e as pessoas, pode ser relacionada com a descrição da primeira comunidade cristã em Jerusalém, que gozava da “simpatia [ou favor ou graça] de todo o povo” (At 2,47).

Em Cl 3,16 aparecerão as expressões “sabedoria” e “graça”, atualizadas na vida daqueles que seguem a Jesus.

Como o relato do nascimento de Jesus sutilmente prefigurava a sua sepultura, assim também esta história prenuncia sua ressurreição. Lembramos que Lucas identifica estar perdido com estar morto e ser encontrado com retornar à vida (15,32). Temos diversos detalhes que nos fazem pensar ao sepulcro vazio de 24,1-8. A indicação de tempo “após três dias” é um indício importante, mas não o único (2,46; 24,7). Há a busca pelo perdido (v.44-45) e a pergunta um tanto abrupta aos buscadores: “Por que vocês estavam me procurando?” (v.49) e o dirigido às mulheres: “Por que procurais entre os mortos quem está vivo?” (24,5). Semelhantes são as reações de Maria que “guardou todas estas coisas [palavras] no coração” (2,51) e das das mulheres em frente ao sepulcro que “se lembraram das suas palavras” (24,8). A história também oferece uma antecipação do aparecimento do Senhor ressuscitado aos discípulos no caminho de Emaús (24,19-34). Na presente narrativa, os que amam Jesus são tomados de angústia por sua “ausência”, de seu “estar perdido”. Na história da aparição há tristeza e angústia entre aqueles que “esperaram” em Jesus, porque agora ele “se foi”. Mas na presente história, embora Jesus seja “encontrado” por seus pais, ele já inicia o processo de desligamento deles.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

www.subsidiosexegeticos.wordpress.com

 

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