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Saber um pouco de tudo é o caminho

Miguel Debiasi

O economista e filósofo austríaco, posteriormente naturalizado britânico, Friedrich Augusto yon Hayek (1999-1992), afirmou “ninguém pode ser um grande economista se for somente economista. O economista que só é economista torna-se prejudicial e pode constituir um verdadeiro perigo”. Para Hayerk isto vale para todas as ciências e para todos os saberes. Esta é no mínimo uma afirmação instigante e cabe-nos acolher ou rejeitar esse pensamento. Eis uma provocação pertinente a ser debatida.

Como primeira ideia, Hayek diz nada mais do que uma convicção dos cristãos. Paulo, apóstolo há muito tempo antes já tinha chegado a essa conclusão: “agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois, conhecerei como sou conhecido” (1Coríntios 13,12). Com certa dúvida porque está transcrita nos diálogos de Platão é atribuída ao filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.), a célebre afirmação: “só sei que nada sei”. Seja ou não o reconhecimento da ignorância por parte deste magnífico filósofo é uma atitude assumida pelo apóstolo Paulo, “nosso conhecimento é limitado e limitada nossa profecia” (1Coríntios 13,12). Tal atitude perpassa todo o ensinamento bíblico, “feliz o homem que encontrou a sabedoria, o homem que alcançou o entendimento” (Provérbio 3,13). Limitado é todo conhecimento, toda ciência, todos os saberes.

A segunda ideia que nos provoca Hayek é suscitada por uma pergunta: um cientista ou especialista de uma área torna-se perigoso a sociedade humana? Obviamente essa ideia é refutada pela prática e com objetivos, argumentos e convicções humanas. Por outro lado, o ser humano de posse de um único conhecimento pode refugiar-se nele e isolar-se numa ilha num arquipélago. A afirmação de Hayek expõe que toda ciência é limitada e tende a fragmentação da especialização não havendo a transversalidade de saberes. O perigo está para Hayek na ausência do pensar e do agir transversal, de uma racionalidade que transita e articula as ciências numa rede de saberes. Apenas um campo de conhecimento corre o perigo de reduzir a realidade, a natureza das coisas e a ciência.

A terceira ideia que nos provoca Hayek leva-nos a tirar as próprias conclusões. Uma verídica conclusão está na afirmação do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin (1921), “a maior contribuição de conhecimento do século XX foi o conhecimento dos limites do conhecimento”. Ou ficamos com uma quarta ideia nessa questão da fragmentação e do perigo de uma única especialização apontado por Havek, como anteriormente havia sido exposto pelos filósofos franceses Descartes e Pascal. René Descartes (1596-1650), em sua obra O Discurso do Método, argumenta: Dá-me uma realidade. Dividi-la-ei em fragmentos. Estuda cada parte, no final conhecerás o todo. Blaise Pascal (1623-1662) argumenta sobre o pensamento de Descartes, toma essa realidade, tem uma ideia primeiro do todo, só depois investiga cada parte sempre em relação com o todo. Obviamente, na arte de pensar podemos fazer a escolha pelo método cartesiano ou pascaliano.

Se conhecer é também desconhecer, ignorar, passar por cima de boa parte da realidade ou das coisas como reflete Edgar Morin, provoca-nos a pensar e aprofundar estudos e conhecimentos. O método básico dos estudos e das ciências consiste na pergunta. O exercício de pensar exige saber perguntar-se a si mesmo e sobre qualquer realidade humana. Todo pensar é um exercício de levantar perguntas, buscando respostas sobre elas mesmas e continuar perguntando para resolver problemas e tirar definitivas conclusões. A pergunta provoca a pensar e conhecer o que significa entender a realidade da dupla face de positividade e de negatividade.

As realidades para serem perguntadas e pensadas não são poucas, como dos gastos públicos com alimentação, mordomias e outras. Em plena pandemia, os militares gastaram verba contra a covid-19 com filé mignon e picanha. A constatação foi feita por auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) e as despesas somaram R$ 535 mil, informação divulgada em dezembro de 2021. O fato tem gerado na opinião pública perguntas como: por que o Ministério da Defesa gastou recursos destinados ao combate a covid-19 para satisfazer o luxo dos militares? Por que ainda o Ministério da Defesa não ressarciu os cofres públicos? Segundo reportagem da Folha de São Paulo, esses gastos com aquisição de gêneros alimentícios com os militares têm-se intensificado desde 2017. Enquanto isso, o Brasil em 2021 retornou para o Mapa da Fome, fato de um vexame Internacional.

Aprender a conhecer e pensar nas ambiguidades da realidade do povo brasileiro nos leva a distinguir projetos governamentais, sociopolíticos, socioeconômicos e assumir posições diferentes e realistas em face de cada situação. Conhecer e pensar de forma crítica no que acontece só tende a contribuir na construção de um novo país mais digno e justo a todos os brasileiros. Quem conhece e sabe posiciona-se contra todas as injustiças e assume a luta transformando a realidade. O conhecimento é um instrumental poderoso que indica o caminho a tomar e apostar as esperanças que é possível outro Brasil, do filé mignon e picanha para todos e não somente para uma elite e classe social. Em outro Brasil a história recente mostrou que é possível, realidade vivenciada com comida na mesa, emprego garantido, acesso a saúde, educação, lazer, bens de consumo e outros ganhos. 

                                                                                              

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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