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À volta

Miguel Debiasi

Em presentes dias avançam as atividades da informática, da tecnologia, dos inventos eletrônicos com maciça oferta de produtos. Vivemos na era dos negócios de produtos eletrônicos iPod, iPad, iPhone, como o evento da individualidade e da inspiração. No jogo da oferta e da procura o mercado investe em novas tecnologias, novos produtos e novos clientes. Nesta esteira do mercado ajustam-se os planos de ensino e coisifica as pessoas e consciências. Nesse contexto, a formação humana tornou-se o grande desafio, tarefa confiada aos pedagogos e aos profissionais de educação.  

O filósofo grego da antiguidade, Platão (427-347 a.C.) afirma “a boa educação dá ao corpo e à alma toda a beleza e perfeição de que são capazes”. O filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) pergunta sobre o mestre que se deveria ter na vida. Grande parte dos institutos de ensino contemporâneos aposta na formação técnica e na qualificação profissional. Na prioridade da formação técnica e profissional as ciências humanas como a filosofia, sociologia, religião, ética, artes artísticas foram retiradas do programa de ensino. Os reduzidos conteúdos de ensino revelam o espírito contemporâneo voltado à produção, economia, mercado, comércio e a demanda material da sociedade. Estes conteúdos não deixam de ser valiosos para as pessoas, mas são insuficientes para a formação humana e para obter conhecimento crítico.

João Batista Libanio (1932-2014), padre jesuíta, escritor e teólogo contemporâneo, perscruta um longo estudo sobre a formação humana transcrito em várias obras, como: a formação da consciência crítica; a arte de formar-se e outras. Estudo este baseado numa compreensão transversal das ciências humanas. O autor indica inúmeras biografias, qualificados teóricos, métodos educacionais e itinerários formativos de conhecimento e consciência libertadora e transformadora. Este vasto estudo de formação humana não é uma agenda didática ou de simples aplicação. Libanio apresenta o conteúdo como “a arte de formar-se”. A “arte” exige criatividade, invenção, inspiração, alma, espírito, processo pedagógico que leve ao conhecimento e a consciência crítica.

O filósofo francês Michel Montaigne, em seu ensaio De l’instruction des enfants ou da Educação dos Filhos, rejeita a escolha do mestre “cabeça bem cheia” e opta pelo de “cabeça bem feita”. A “cabeça bem cheia” é significado de um saber empilhado, acumulado e que não dispõe de um princípio de seleção e organização que lhe dê sentido. A “cabeça bem feita” significa que, em vez de acumular saber, é mais importante dispor uma aptidão para colocar todos os problemas e princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido. As ideias do pensador francês influenciaram as escolas e instituições de ensino até final do século XVIII. Para o nosso tempo as ideias de Montaigne são importantes num plano de ensino de formação humana, mas precisam ser atualizadas e reinventadas.

Libanio diz que vivemos numa cultura da informação, das notícias, da abundância de dados, de sites, de home pages, entenda-se, da incapacidade de organizar saberes e lhes dar o sentido. Há uma avalanche de especializações, cursos técnicos, de disciplinas autônomas, de saberes vazios das próprias regras de pensar, tudo em função da produtividade econômica. Isto revela a necessidade de um novo paradigma de formação, pois, na falta de um conhecimento e consciência crítica estão em risco a vida de todas as criaturas, os ecossistemas, o universo e a humanidade. A formação humana não cabe dentro da lógica da tecnologia eficiente e da produtividade. É preciso pensar na arte de formar-se que supõe processos pedagógicos que não instrumentalizem as pessoas como peça na engrenagem do sistema.

Os processos educativos e os pedagogos pensam numa verdadeira “maiêutica histórica” como “descobrir um tesouro”. O processo educacional corrige a passividade e traz a luz novas concepções e novas consciências. A arte de formar-se é constituir um movimento de consciência que se traduz em ação de “tirar para fora” e “trazer à luz” aquilo que de certa maneira já existe nas pessoas, crianças, adolescentes. Formar-se é descobrir e revelar aquilo que já existe e que está velado na pessoa, a capacidade de conhecer e pensar de maneira crítica. Conhecer e pensar não são um ato técnico, mas aprendizagem da própria história e de desenvolver conscientemente o compromisso com sua transformação.

De acordo com os pesquisadores em segurança alimentar da Organização das Nações Unidas para Alimentação da Agricultura (FAO), o Brasil em 2021 retornou para o Mapa da Fome. Em 2015 o Brasil tinha superado a fome, tirando 34 milhões de brasileiros da linha da miséria. A volta do Brasil ao Mapa da Fome é um grande retrocesso inédito no mundo. Obviamente, para os brasileiros e aos cristãos é uma volta lamentável e indefensável, sendo o Brasil um dos maiores produtores de alimentos do mundo.                   

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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