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A Soberba

Gilmar Zampieri


A soberba é o pecado contra a humildade. A humildade é uma virtude. A soberba é um vício. A virtude da humildade é o reconhecimento da própria verdade, nem mais nem menos. A humildade não é desprezo de si. O desprezo de si é uma maldade e uma injustiça contra a autoestima. A humildade é uma virtude de justa medida entre a soberba arrogante e o desprezo de si. A soberba, por sua vez, é achar-se maior do que se é. Se o desprezo de si é uma falsa humildade, um tornar-se menos do que se é, o pecado da soberba é o exagero e a inflação de si, é um excesso do eu, um pecado por inflação do ego.

A soberba é um outro nome para a vaidade e o orgulho. O soberbo se acha melhor do que é e melhor de todos os outros. O soberbo “se acha”! Por “se achar” deixa de considerar os outros como iguais, alimentando uma falsa superioridade, enganosa e danosa, pois, em se tendo “numa conta excessiva”, pensa ser mais do que é e, por conta disso, deixa de procurar ser melhor, achando que já é “o melhor”. O efeito espiritual e moral dessa atitude viciosa é devastador. Aliás, tudo o que afronta a reta razão e a verdade, é devastador. E o soberbo afronta a razão e a verdade ao pretender ser o que não é.

A soberba é o pecado do excesso do eu. A soberba é a mãe de todos os pecados pois alimenta uma vaidade em demasia e um senso exagerado da própria importância. É a mãe de todos os pecados porque o seu portador se acha, infla o peito e está sempre pronto a dizer, em alto e bom som: “sabe com quem você está falando?” É o pecado da arrogância e o arrogante não se sente confortável a não ser como um “pequeno deus”. É o pecado de Adão e Eva. O pecado de Adão é cair na tentação de querer ser igual a Deus e não aceitar a condição humana.

Ser humano significa aceitar-se como “aquele que veio do húmus”. A humildade nada mais é do que saber-se de origem do húmus. Húmus, humano, humilde são da mesma família ontológica e etimológica. O soberbo pensa que pode se bastar, quando na verdade o bastar-se é a coisa mais estranha ao humano, vulneráveis, dependentes e frágeis que somos.

O mais prejudicado no pecado da soberba é o próprio soberbo pelo efeito devastador na sua alma, mas não só. O efeito da soberba recai também sobre os outros, inferiorizando-os, diminuindo-os e desprezando-os. A bem da verdade, na soberba, o ciclo do pecado se fecha porquanto o seu portador, ao transgredir a lei eterna de Deus, acaba causando danos a si e aos outros. Pecar contra Deus, contra si e contra os outros. Eis aí a tríade da essência do pecado.

Mas tem mais. No caso do humano em geral, caímos na tentação da soberba sempre que nos achamos superiores aos outros seres e por isso o efeito devastador, hoje mais do que evidente, desse pecado, sobre a natureza e os animais. Quanto mal praticado pela atitude soberba de nos acharmos a “cereja do bolo da criação”, diminuindo todos os outros seres, submetendo-os ao nosso domínio! Quanto mal!

Os vícios ou pecados capitais trabalham juntos, subordinados a um principal, a soberba. Caberia aqui pensar na ideia de que todos os males estão submetidos ao príncipe do mal, o diabo, e o diabo é diabo não só por ser velho, mas, sobretudo, por ser soberbo. Ele, o tinhoso, simplesmente não aceitou não ser deus e se rebelou, contra Deus, por soberba. O diabo não se tornou diabo pelo pecado da luxúria, da gula, da avareza ou da preguiça. Não. O diabo, um anjo decaído, decaiu pela soberba de querer ser deus. Pela soberba participamos do diabólico! Essa é uma lição metafísica que dá o que pensar.

Pensar, ao lado de amar, são as duas formas humanas mais elevadas para não decairmos banalmente no pecado e no mal. Pensar e amar! Amar e pensar!


 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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