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Entrevista: Cacique da Reserva da Serrinha em Ronda Alta e indígena que contesta atual situação da Reserva dão suas versões sobre o conflito – Rádio Sarandi

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Os conflitos teriam como principal foco o suposto arrendamento de terras, a violência na aldeia e a legitimidade do Cacicado.

Foto: Francieli Alonso/RBS TV

Na manhã desta quarta-feira, 20 de outubro, os conflitos que levaram à morte de dois indígenas na reserva caingangue Serrinha, em Ronda Alta, no último sábado (16), foram tema de entrevistas com Marciano Inácio Claudino, Cacique da Reserva da Serrinha; e Vãngri Kaingáng, indígena que questiona o uso das terras da aldeia, bem como a liderança de Marciano. Os conflitos teriam como principal foco o suposto arrendamento de terras, a violência na aldeia e a legitimidade do Cacicado.

Segundo o Cacique Marciano, os dois homens mortos a tiros no último sábado (16) em uma plantação de trigo às margens da ERS324 faziam parte de um grupo que havia realizado um atentado contra ele. Ele nega envolvimento com as mortes e afirma que as duas vítimas, e outros indígenas, já haviam sido expulsos da reserva e teriam voltado ao local para realizar uma “emboscada” onde ele seria o principal alvo. Sua camioneta Hylux teria sido atingida por diversos disparos. Nela estavam ele e mais três pessoas. Ninguém ficou ferido. Na versão de Marciano, após o ataque, apoiadores dele teriam entrado em confronto com o grupo que o atacou, o que resultou nas mortes. “Eu sou a maior vítima. Isso será provado com o termino do processo.” Diz ele.

Marciano diz que há dentro da aldeia um grupo de aproximadamente 8 famílias que contestam sua liderança e tenta tomar o poder. A aldeia, segundo ele, conta com aproximadamente 800 famílias. Ele afirma que conta com apoio da comunidade, que vive de forma pacífica, não condizendo com atos de violência expostos por alguns indígenas. Marciano ainda expõe que considera sua liderança legítima. Seu pai foi cacique por mais de 20 anos. Após ser assassinado, seu irmão assumiu o Cacicado, mas faleceu em virtude de Covid-19. Com isso, segundo ele; a comunidade entendeu que ele, Marciano, deveria suceder na liderança.

O arrendamento das terras indígenas seria o principal motivo dos conflitos que se arrastam há anos. Questionado se há arrendamento de terras, Marciano admite a prática. Segundo ele, havia; desde 2019, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre Ministério Público Federal (MPF), Cooperativa dos Trabalhadores Rurais Indígenas de Serrinha (Cotriserra) e Conselho Nacional do Índio (Funai), que regrava a exploração da área da reserva. Porém, desde junho de 2021, foi firmada uma parceria entre índios e pessoas que ele chama de “Não índios”, onde parte das terras seria arrendada e outra parte plantada, pelos índios e a cooperativa. Ele avalia que a prática pode ser considerada ilegal perante a justiça. Mas, seria a única maneira de manter as terras do povo indígena. “A questão das lavouras é ilegal perante a justiça. Mas, hoje; é o único meio que temos. Não temos nenhum incentivo de bancos e nada. Nós vamos tocando nossas lavouras como podemos.” Diz ele.

Para a indígena Vãngri Kaingáng, que contesta o uso das terras da Reserva; bem como a liderança da aldeia, Marciano estaria exercendo um Cacicado ilegítimo. Vãngri afirma que residiu cerca de 20 anos na Reserva, e diz ter sido expulsa do local, juntamente com sua família. Ela afirma que há muita violência por parte da liderança e uso indevido das terras e do lucro obtido pelo arrendamento. Hoje, estuda Medicina em Pelotas-RS, e afirma que mesmo não estando na Reserva, segue em uma luta contra o arrendamento irregular e pelo divisão das terras, de forma igualitária, para todos os indígenas. Ela diz que assim como ela, inúmeras famílias também foram expulsas e hoje lutam pela mesma causa. “Posso estar fora aldeia. Perco minha casa. Perco minha terra. Mas, vou continuar defendendo meu povo de onde estiver, O que ele (Marciano) está fazendo é um crime. O arrendamento é ilegal” declara ela.

Sobre a liderança da aldeia, e as práticas de Marciano, Vãngri avalia que o Cacicado de Claudino não seria legítimo, pois, segundo ela, Marciano não teria sido eleito; e sim, tomado o poder. “Dentro da cultura caingangue, o cacique tem que ser eleito pela maioria da aldeia. Ele (Marciano) não tem o apoio de 70% da aldeia.” Diz ela. Ela afirma ainda que o Cacique não pode ser branco; e Marciano, segundo ela, é branco.

Questionada se há uma disputa pelo poder de liderança na aldeia, ela afirma que a reinvindicação mais importante seria para que a aldeia dê suporte para os indígenas, e a disputa não seria assim somente pela liderança. “Nossa briga é para que as aldeias abriguem famílias de indígenas, e não que a terra seja usada apenas para ser produtora de dinheiro para sustento da família do cacique e suas lideranças.” Diz ela; que complementa que a terra deve ser utilizada pelos indígenas para plantar o seu sustento e alimentos tradicionais, e não para o cultivo de trigo ou soja.

Vãngri expõe dados sobre o uso das terras da reserva, propondo uma reflexão de que enquanto há lucro proveniente do arrendamento, o povo indígena passa fome, e prefere estar na rua para não viver sob o comando da Reserva. Segundo ela, são 11.950 hectares de terras arrendadas, onde a cooperativa receberia 3 sacos de soja por hectares, o que, segundo ela; poderia gerar um valor aproximado de R$ 2 milhões por safra. “O que esse homem (Marciano) fez com esse dinheiro? Os índios estão à beira da estrada e nas rodoviárias, porque não querem viver abaixo da tortura de Caciques como Marcio” Diz ela.

A indígena declara ainda que é importante dar transparência para os valores provenientes do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). “Eu vou combater isso até o fim. Posso nunca mais voltar para essa reserva, mas todas as reservas indígenas terão o direito de o TAC ser fiscalizado. Se o dinheiro é público, a prestação do TAC deve ser também.” Avalia ela.

Em diferentes momentos, Vãngri, que atua na assistência ao povo indígena, além se dedicar à produção literária, diz ser ouvinte assídua da Rádio Sarandi e por isso aceitou dar entrevista. Ela faz questão de pontuar que o que ela e outros indígenas defendem é, principalmente; o acolhimento a todos os indígenas. Ela enfatiza que não têm nada contra colonos, e quer esclarecer isso para a região de Sarandi. “O colono não é uma pessoa ruim. Eles são trabalhadores. São pessoas esforçadas. Não quero que eles se ofendam com a questão do agronegócio. Mas eu quero que eles entendam que o arrendamento, que têm acontecido nas terras indígenas, simplesmente; só gerou morte. Por que eles arrendam do Cacique, e só o cacique que ganha o dinheiro. As outras famílias ficam perecendo.” Reflete ela.

Confira as entrevistas, na íntegra, com Marciano Inácio Claudino e Vãngri Kaingáng clicando em “Ouvir notícia”.

Central de Conteúdo Unidade Sarandi

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