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Viu, sentiu compaixão e cuidou dele

Miguel Debiasi

O atual sistema econômico gera antagonismos, ricos e pobres, inseridos e marginalizados, prestigiados e desprezados, protegidos e desamparados, opressores e oprimidos. Nesse contexto social antagônico, os mandatários da economia são preservados com vantagens e aos pobres a única esperança é esperar por um gesto de misericórdia e de solidariedade.

A política economia capitalista dividiu o mundo entre dois polos, tradicionalmente definidos como o do Norte dos ricos e o do Sul dos pobres. O capital dividiu a humanidade em primeiro e terceiro mundo. Os ideólogos da economia capitalista percorrem o mundo repetindo a velha tese que somente os ajustes fiscais trarão desenvolvimento econômico. Em defesa desta utopia os economistas neoliberais são recebidos como oráculos inspiradores e iluminados. Os países que não se submetem a esta ideia são boicotados pelo mercado mundial, como Cuba, Venezuela, Bolívia. Porém, os inspiradores e iluminados esquecem que a crise econômica mundial que devasta países como Chile e Argentina é fruto de suas ideias.

O capitalismo para reinar como potência política, econômica, ideológica submete sem escrúpulo ético continentes inteiros como América Latina e Central, África e os países do terceiro mundo. A história referenda que só existe a potência econômica porque invadiu a colônia. A elite existe porque se serve do pobre. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informa que a pobreza no Brasil passou de 25,7% para 26,5% da população entre 2016 e 2017. O número dos extremamente pobres, aqueles que vivem com menos de R$ 140 mensais, saltou no mesmo período de 6,6% para 7,4%. Em 2019 os ricos ficam 10% mais capitalizados e os pobres tiveram uma retração de 4% de seus rendimentos. Na lógica do sistema capitalista os ricos enriquecem quando cresce a pobreza, a miséria.

Para os inspiradores e iluminados neoliberais tudo se justifica em nome da economia. Os neoliberais pretendem explicar o sentido da vida humana pela utopia da economia. Para estes, a economia tornou-se o ar que o ser humano deve respirar, embora escondam os fracassos do crescimento do número de pobres. Em defesa do reinado da economia o mercado dispensa valores éticos. Porém, a atual crise econômica denuncia que a livre economia é um sonho. Um bilhão e meio de seres humanos descapitalizado é resultado desta fantasia.

No entanto, sabe-se que o progresso da humanidade não vem da absoluta liberdade econômica como pregam os inspiradores neoliberais. Também, o desenvolvimento do ser humano não vem das teorias liberais. É preciso recordar que a disputa pelo mercado no século XX levou a humanidade a duas guerras mundiais e a maiorias dos países ao endividamento impagável com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O crescimento humano está para além de um empresário comprar a força de trabalho do ser humano. O capital só poderá ser justo se gerar as condições para que todos vivam dignamente. Um sistema econômico que não pensa na qualidade de vida dos outros é infrutuoso e acumula injustamente.

A Campanha da Fraternidade de 2020 propõe um debate sobre a vida. O lema da CF propõe uma atitude: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lucas 10,33-34), como fez o bom samaritano. Jesus através da parábola indica que somente um olhar interessado pelo outro poderá trazer o bem para as pessoas. A economia neoliberal que explora e que gera miséria é incompatível para um cristão que deseja viver sua fé em Cristo. Para um cidadão só haverá um sistema justo quando o trabalho humano proporcionar alimentação, saúde, cultura, dignidade, sabedoria a todas as pessoas, escreveu Karl Marx. Nenhuma legislação jurídica e política, nenhum sistema econômico e social, nenhum discurso religioso é plausível se não estiver na perspectiva que Jesus indica, da atitude do bom samaritano.

Em presente contexto sem uma alternativa ao sistema econômico vigente levará a humanidade ao sofrimento e à morte de milhões de seres humanos de fome. A Igreja pela Campanha da Fraternidade desafia a uma reflexão sobre a vida do outro, do planeta para enfrentamento de um sistema excludente. É preciso dizer aos idolatrados inspiradores e iluminados economistas neoliberais que o capitalismo só desenvolve quando o pobre comer. Quando o trabalhador ganhar o salário digno e repartir o capital. Quando o desempregado tiver trabalho. Quando o Estado exercer seu papel de regulador de renda e da seguridade social a todos os cidadãos.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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