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Vocês sabem o que aconteceu...

Vanildo Luis Zugno

 

O cristianismo é a religião da memória. Diferente do uso habitual, memória, no sentido cristão, não é apenas lembrar os fatos do passado. É lembrá-los, sim, mas na medida em que eles continuam atuando em nosso presente e nos conduzindo para o futuro.

O cristianismo não inventou isso. É uma herança das raízes judaicas. Na Páscoa judaica, o pai, ao redor da mesa com a família, lembrava aos filhos a trajetória do povo, desde os tempos de peregrinação no deserto, a descida para o Egito, a escravidão que sofreram durante quatro séculos e, finalmente, a libertação que Deus lhes havia proporcionado. Recordar o passado de escravidão e a libertação operada por Deus era a forma de vacinar o povo contra a sedução das novas escravidões.

Na última Páscoa que passou com seus discípulos, Jesus celebrou com eles a memória da libertação. Como mandava a tradição repartiu o pão e o vinho. O pão lembrava a comida para o povo faminto e o vinho a alegria pra os que viviam a dor e o sofrimento. Era o compromisso de continuar fiel a Deus e fiel ao povo.

Jesus pagou caro por sua fidelidade ao projeto de Deus de dar pão aos famintos e alegria aos entristecidos. Foi crucificado e morto na cruz. Mas Deus o ressuscitou e os discípulos reconheceram que Ele estava presente e atuante na pessoa de Jesus. E que, para ser fiel a Deus, era preciso fazer a memória de Jesus e de tudo o que Ele tinha feito.

Na Vigília Pascal, renovamos nosso compromisso com Cristo. Fazemos a Grande Memória da libertação do povo de Israel e da entrega de Jesus Cristo para a nossa salvação. Na memória desse passado, afirmarmos nosso compromisso de viver no presente aquilo que Jesus viveu afim de que o futuro seja de vida nova para todos.

Este ano, a Páscoa terá um sabor especial. As circunstâncias forçam-nos a vivê-la de um modo diferente. Não haverá viagens. Não haverá festas. Nem celebrações litúrgicas públicas. O isolamento social imposto pela Covid19 nos obriga a passar a Páscoa em casa, com nossas famílias. Muitos a passarão sozinhos. Outros em hospitais. E também haverá aqueles que a passarão chorando seus mortos. Os “coelhinhos da Páscoa” desapareceram. Assim como raros serão os chocolates. A mesa não será tão farta como costuma ser nas festas pascais.

Será uma Páscoa diferente, de silêncio e de reflexão. Talvez a oportunidade para, em meio à apreensão, à dor e ao sofrimento, retomarmos o costume de fazer a Memória Pascal. Lembrar a ação libertadora de Deus e renovar o compromisso de, com Jesus, colocar a nossa vida a serviço dos que tem a sua vida ameaçada pelo coronavírus e pelos discursos de morte que ameaçam a sobrevivência dos débeis e dos pobres.

Afinal, como lembra Pedro em seu discurso na casa de Cornélio, “vocês sabem o que aconteceu...”

Uma boa Páscoa de Ressurreição a todos e a todas.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frade Menor Capuchinho na Província do Rio Grande do Sul. Graduado em Filosofia (UCPEL - Pelotas), Mestre (Université Catholique de Lyon) e Doutor em Teologia (Faculdades EST - São Leopoldo). Professor na ESTEF - Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (Porto Alegre)."

 

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