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Razão e paixões

Gilmar Zampieri

Quando alguém nos diz “siga o coração”, não está dizendo outra coisa senão: siga as paixões e não a razão. Quando alguém nos diz “pense bem”, outra coisa não está dizendo senão, siga a razão, pondere, não siga os sentimentos, os interesses imediatos e as paixões. Cabeça e coração, razão e sensibilidade são as duas energias que conduzem a locomotiva das aventuras humanas. O senso comum percebe isso de uma forma imediata e intuitiva. A filosofia ocidental, por sua vez, sintetizou conceitualmente a condição humano, naquilo que a mitologia grega já tinha identificado em dois deuses que diretamente lidam com a essência antropológica: Apolo e Dionísio.

Apolo é nosso lado razão, ponderação, moderação, ciência, medida e luz. Dionísio é nosso lado paixões, desmedida, festa, embriagues e sombra. Apolo e Dionísio, razão e sensibilidade são duas grandezas que melhor dizem o que somos. Não há humano que não seja síntese dessas duas grandezas. A síntese, contudo, pode ser feita por negação, por subordinação ou por integração.

O racionalismo nega que o coração e as paixões sejam bons guias para a condução do caminho ético, político ou religioso. O racionalismo, de Sócrates à Kant, diz que o homem só é humano se guiado pela razão e, no mínimo, se não puder negar e eliminar as paixões, deve exercer domínio e controle sobre as mesmas. Os estoicos sintetizaram a ideia racionalista dizendo que a razão é que nos faz virtuosos e as paixões, via de regra, nos arrasta para um redemoinho de perturbação da alma.

Não conheço filósofo ou movimento filosófico e teológico que diga o contrário, a saber, que as paixões devem dominar e submeter a razão aos seus propósitos. Schopenhauer, porém, e depois dele Nietzsche e Freud, disse que toda tentativa da razão, no pretenso senhorio sobre a vontade e as paixões, resulta sempre em fracassada tentativa, pois é a vontade cega que domina e submete a razão a seus propósitos. Dito de outra forma, a razão só entra como justificadora de decisões prévias e inconscientes da vontade passional. Em outras palavras ainda e de uma forma simples e direta: o coração e as paixões alugam a cabeça para que esta justifique e racionalize o que já está previamente decidido pela vontade passional.

O racionalismo é um idealismo, um postulado do que seria bom que fosse, mas raramente é. O vitalismo de Schopenhauer e Nietzsche, não idealistas, dão-se conta que a razão é um anão sentado nos ombros de um gigante chamado vontade de poder. Como está sobre os ombros pode enxergar mais longe, mas raramente consegue frear, submeter e dominar a vontade e, por isso, pode haver muita tragédia no caminho da vida. Mas o trágico é o que é e a vida parece não se imunizar do trágico, pois o trágico é o que é inevitável, apesar do querer humano. O trágico, quando bem entendido, significa que nem tudo está sob controle e, mesmo contra a razão, as coisas acontecem. O trágico é o contrário da concepção racionalista que postula que um Logos domina tudo e sempre para o melhor. O trágico, ao contrário, postula que não há como controlar as energias e pulsões que movem o mundo e, ás vezes, as coisas não acabam bem.

Como gostaríamos que acabasse a história brasileira que está por viver dias decisivos? Em que será melhor apostar, na democracia racional ou nas pulsões sob o sentimento difuso de ódio e ressentimento? O que podemos esperar do futuro imediato, fruto de nossa decisão individual? Quem conduzirá os dedos nas urnas, a paixão ou a razão?

A aposta na razão é a aposta na democracia. A aposta na paixão é a aposta no obscuro e na “razão da autoridade”, mais do que a “autoridade que vem da razão”. Os que vierem depois de nós viverão as consequências do ato que estamos prestes a protagonizar e assistir. Qual das paixões nos conduzira, o medo ou a esperança? O que nos conduzirá, o trágico ou a racionalidade com o mínimo de previsibilidade controlada? Sobre as costas dos indivíduos recai o maior dos pesos. Não será demasiado grandioso o ato que estamos prestes a empreender? Estaremos à altura das exigências do tempo, ou seremos merecedores do destino trágico que virá?

 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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