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Rancor, o troféu dos vencidos

Gislaine Marins

Nunca foi tão claro que uma parcela consistente da população brasileira votará apenas por ódio. Sentimento profundo que curtocircuita a realidade, alguns já descobriram cirurgicamente como tirar vantagem do mecanismo para usá-lo como alavanca eleitoral. O ódio é uma ferramenta poderosa e perigosa, mas para quem nada tem a perder (e nada a propor), funciona para o objetivo imediato: eleger. Alcançada a meta (ou mesmo sem a alcançar), os odiadores poderão ser deixados ao seu destino e ao seu rancor: descartados como um copo de plástico, vazio e poluente.

Em 2018, algumas pessoas me disseram que votariam somente por ódio ao PT. Chamei a atenção para os programas dos candidatos e para o risco de que um dos setores mais atingidos por um dos candidatos favoritos poderia ser o da saúde, já profundamente abalado pelo teto de gastos. Escolheram o candidato com mais chances de derrotar o PT e em relação à saúde afirmaram que não lhes interessava o sistema público, pois tinham seguro de saúde. Não pode existir ódio sem egoísmo. Também não pode existir sociedade formada apenas por egoístas nas suas bolhas individuais, desprezando a sorte dos que não podem ter um plano de assistência médica privado.

Em 2018, ninguém imaginava que haveria uma pandemia. Mas isso também não abalou os odiadores. Eu, sim, fiquei chocada e agradeço por não ter perdido a sensibilidade e a compaixão por aqueles que perderam a vida por falta de tratamento adequado ou ausência de vacinas a tempo de evitar infecções graves e mortais. Fiquei abalada e ainda custo a recuperar a serenidade diante da memória de milhares de covas, de um sem-número de casos, desde os mais próximos até os mais distantes, e de notícias que levaram gente embora da vida de maneira trágica e inatural.

Um dia, avisei da morte de um conhecido a alguém que acreditava no tratamento precoce. Com a mesma superficialidade que constatamos em certas autoridades ao falarem da morte na televisão, recebi como resposta um seco "sinto muito" e "não se preocupe por mim, que não peguei e não pegarei covid". O ódio anestesia os afetos mais profundos. Mais do que isso: desafia a própria morte, com irracional prepotência.

Essa parcela rancorosa da população continuará a votar por ódio. Desarraigar as pessoas dessa condição será difícil. Não adianta dizer: "eu avisei". Isso aumenta ainda mais o ódio nutrido no fundo das suas almas adoecidas. Não adianta falar de mundo inclusivo, dado que conceitos sociais não são compreendidos por quem professa o individualismo como único caminho, verdade, vida ou morte. Ainda que lhes fossem oferecidas oportunidades, os odiadores recusariam, pois lhe inculcaram que a meritocracia é o contrário de qualquer programa de melhoria das condições gerais de vida de toda a população. Os odiadores são orgulhosos: preferem morrer na pobreza e ostentar que fizeram todos os esforços sem jamais valer-se de qualquer programa que pudesse favorecer o seu crescimento pessoal. Programas sociais para os odiadores são esmolas inaceitáveis para a condição distrófica dos seus egos.

Os odiadores, enfim, são ignorantes. Estudaram pouco e mal as experiências de bem-estar social realizadas nos países desenvolvidos. Costumam comparar o Brasil com países que possuem programas estruturais de assistência social, afirmando do alto do senso comum que as coisas funcionam porque não existe corrupção no mundo desenvolvido. Ou, se há, é combatida de maneira eficaz. Na realidade, os programas sociais não têm nada a ver com o nível de corrupção, que existe em todo lugar e deve ser combatida judicialmente, sem interferência ou cortes nos programas que beneficiam a população honesta, que paga impostos, contribui e tem direito aos serviços do Estado. Mas dizer que tudo no Primeiro Mundo funciona e que a culpa do nosso atraso é a corrupção torna-se álibi e explicação para defender o injustificável.

Ódio, indiferença, orgulho e ignorância: este mix de sentimentos e condição explicam muitas opções políticas incoerentes com os interesses dos próprios odiadores. Esses eleitores geralmente são vítimas do sistema que defendem, por não verem alternativa ao voto por exclusão afetiva. E a solução não poderá ser encontrada a curto prazo.

No horizonte dos próximos meses, uma esperança é contar com a parcela da população que não foi instrumentalizada o suficiente para esquecer quem é, de onde veio e para onde vai. É uma parcela consistente da população brasileira, o que apavora os manipuladores de plantão. No entanto, o Brasil possui mais do que eleitores, bom senso e boa vontade. A burocracia ainda não foi totalmente debelada e é chamada à coragem de exercer a função que lhe foi atribuída constitucionalmente. Todos os órgãos convocados para zelar pelas eleições devem cumprir o mandato previsto pela Carta Magna, sem interpretações cômodas ou maliciosas. Essa é a tarefa. Esse é o único objetivo a ser alcançado: defender as instâncias democráticas a qualquer custo.

Existe algo superior e ao mesmo tempo condicionante da ação de cada cidadão: chama-se ética. É aquilo que faz um subordinado desobedecer uma ordem injusta e defender até as últimas consequências os princípios democráticos que nos libertaram do jugo do regime militar, da censura e da opressão. Tenho certeza de que não faltarão servidores fiéis à nossa Constituição para cumprir essa missão. Esses são os heróis da nossa democracia.

Quanto aos rancorosos, esperemos na derrota do ódio. É o primeiro passo para retomar a normalidade. Depois haverá muito a fazer: criar uma estrutura estável e aplicável a todas as categorias sociais, na medida das suas necessidades, para uma inclusão monetária e social dos recursos à disposição. Superar a lógica erroneamente difusa na sociedade de que os programas sociais são esmolas governamentais aos indigentes é urgente. Então, que a classe média seja incluída no cálculo proporcional dos serviços prestados. Incluindo e explicando que a classe média é contemplada nos investimentos sociais e na detração de impostos, ficamos todos no mesmo barco, diferenciados apenas pela alíquota e pelo nível de necessidade.

Não será a solução para todos os nossos problemas gangrenados, mas poderá ser o início de um período em que o rancor deixe de ser um troféu dos vencidos e a compactação social se transforme em medalha dos nossos esforços e da nossa esperança.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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