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Procura-se Tomé das Mulas

Gislaine Marins

A bem da verdade o seu nome é Quinca, santo designado, humanamente obstinado, cachaceiro por opção, criatura de João Ubaldo Ribeiro. É um dos melhores personagens de Ubaldo Ribeiro, tão perspicaz em capturar a tenácia dos homens, e foi levado ao cinema por Cacá Diegues com o título de “Deus é brasileiro”. Quem não ama Cacá Diegues e como não reconhecer a genialidade de alterar o título do conto para brincar com uma das mais profundas crenças dos brasileiros?

No entanto, a realidade é que o conto “O santo que não acreditava em Deus” focaliza outro aspecto, exatamente o oposto do que sugere o título do filme: o fio condutor da narrativa é a descrença.

Em sua viagem à busca do santo que elegeu, Deus primeiro encontra um pescador desanimado pela magra pescaria. No diálogo, que leva o Supremo a revelar a sua identidade, apesar de estar contrariado com isso, prevalece o bom humor, especialmente nas falas do pescador, que revela um temor ritual à ideia de Deus e total descrédito em relação à divindade que se apresenta diante de seus olhos. A discussão desemboca no contato físico: não bastam palavras para que o pescador acredite em Deus, é necessária a materialidade.

O embate mais difícil para Deus ocorre, porém, ao encontrar Quinca das Mulas, assim conhecido por se dedicar a mulas depois de ter vivido uma vida abastada. Deus come, bebe, joga conversa fora na tentativa de obter a confiança de Quinca, mas quando revela quem é e o que deseja dele, o homem fica revoltado. De longe, o pescador, que levara Deus até Quinca, relata a discussão acesa entre os dois, a luta corporal entre eles e o desfecho, ao nascer do dia, quando Deus se afasta do santo por ele escolhido e pede que o pescador leve-o para Itaparica. O pescador, com os seus botões, acredita que Deus perdeu a sua batalha, mas o Todo-Poderoso repreende o seu acompanhante: nada está perdido!

Há um quadro de Caravaggio, talvez o mais rebelde gênio da arte mundial, que retrata de forma extremamente humana a necessidade da crença: é a “Incredulidade de São Tomé”. Quase no centro, sob a luz que atravessa a cena, Jesus com uma mão abre o manto que cobre o seu corpo e com a outra agarra a mão de Tomé que toca a ferida.

A história de Tomé, o Apóstolo, parece ser o fio condutor para compreender a trajetória de Quinca. A alusão à pesca milagrosa que dá início à narração, o fato de Quinca comer e beber com Deus, numa ceia final totalmente desprovida de sacralidade, mas que precede o embate e a determinação ferrenha de Quinca em descrer, bem como a própria moldura do conto como viagem de Deus à procura do santo, percorrem de forma humanizada as etapas da história de Tomé, o santo que perguntava ao Mestre qual era o caminho a seguir. Tal como ele, Quinca é um homem que enfrenta uma realidade hostil e dedica suas energias às mulas e a ajudar quem precisa.

É o leitor, por meio das alusões que o texto oferece, quem pode traçar paralelismos e reconhecer a releitura de uma humanidade à luz de uma ética capaz de atrair a paciência de Deus, como relata o narrador. Na versão de João Ubaldo Ribeiro, Deus não quer mais fazer milagres, a não ser em casos extremos, por isso cabe aos homens seguir a sua trajetória com base naquilo que lhes é mais peculiar: tocar com as mãos a pobreza, reconhecer-se nas dificuldades do outro, seguir ao lado das pessoas sem preconceitos.

Quinca leva Deus à feira, à farra e à vida, com as suas marginalidades, com as suas dificuldades, com os seus temores diante daquilo que representa o poder e com a coragem para enfrentar os obstáculos. Posto à prova, Quinca sai da luta com a total confiança de Deus, que esboça um sorriso antes de voltar a desaparecer no céu, diante do pescador. É um conto que, por meio de inversões, reabilita aquela que deveria ser a mensagem, ou seja, o convite a agir, contido nos textos da tradição cristã. O fazer cabe aos homens, o milagre a Deus. O que emerge é um Deus que acredita em Tomé e um Tomé que vai pelo mundo ao lado dos últimos.

É importante compreender o contexto cultural no qual crescemos, independentemente da nossa religiosidade ou não, para entender quão complexa pode ser a trajetória humana capturada pela literatura e entregue aos leitores para um confronto íntimo, para que a mensagem produza frutos, alimente ideias, estimule um balanço interior, pessoal. Nesse conto, emerge a força da ação em relação a uma crença vazia, retórica e, muitas vezes, instrumentalizada. A instrumentalização da religião, ao contrário das releituras literárias, que se colocam em diálogo, esvazia o conteúdo teológico daquilo que utiliza, deturpa os objetivos da religião, falsifica a sua mensagem.

É assustador o que vivenciamos hoje, um país em que a fé dos mais simples é manipulada em discursos políticos, em que a religião é usada como slogan do poder e como escudo para as maiores violações dos direitos fundamentais das pessoas, a começar pelo direito à vida, à saúde, à educação e ao trabalho.

Por isso, apesar das dificuldades e da delicadeza do tema, é necessário ilustrar a diferença entre a literatura, que afunda seus dedos nas feridas da sociedade e da cultura para fazer emergir a dor, o temor, a coragem, o exemplo, e os discursos manipulatórios, que ofendem as religiões, criam divisões e perseguições, segundo as diferentes crenças das pessoas, instigam a divisão da nossa sociedade, aprofundam as desigualdades de conhecimento, mantendo as pessoas numa hipnose fanática que nada tem a ver com a fé. E que, menos ainda, tem a ver com a atitude dos que agem sem crer, mas, agindo, trilham um caminho ético e, quem sabe, também o caminho da graça.

Procura-se Tomé das Mulas com urgência. Com ou sem experiência. Com vontade de acreditar que por meio dos nossos atos podemos mudar a nossa história. Que não esteja apenas nas folhas dos livros, mas que entre no livro da história.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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