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O tempero de louro

Jaime Bettega

Prestar atenção aos detalhes, pode se tornar algo inerente ao jeito de ser e ao modo de viver. O cantar dos pássaros prende a minha atenção, as flores que desabrocham acabam tendo uma linguagem, a chuva que cai é melodia, em alguns momentos. Tudo parece confirmar que a maturidade garante mesmo algumas características, como o desejo de silenciar, o afastamento de ruídos estridentes, a calma para assimilar determinados fatos. Sem contar que cresce, diariamente, a necessidade de ficar um pouco recluso para abrir as portas e as janelas da criatividade. Os anos realmente acalmam a vida. É evidente que ninguém deve tornar-se um eremita, a menos que tenha vocação para viver na extrema solidão. Mas é muito importante ficar atento às demandas, que brotam das profundezas do ser. Viver na agitação tem um período, é próprio de um ciclo, cai bem para uma certa idade. Pode não ser uma regra válida para todos, mas a soma dos anos torna a vida diferenciada.

Por causa de um compromisso, há pouco tempo, estive num município não muito distante da minha cidade. Ruas bem traçadas, trânsito organizado, pessoas dispostas. Um lugar onde ainda é possível encontrar-se com o cuidado e respirar o oxigênio do dinamismo. Acompanhado de outras pessoas, percebemos que, ao longo da calçada havia um pé de louro. Todos acabaram parando para ler uma breve frase, num cartaz protegido por plástico. A inscrição dizia: ‘é louro, disponível a todos.’ Pelo cenário, muitos já tinham passado por essa rua colheram folhas, quebraram galhos e levaram para casa o tradicional tempero, que possui um aroma inconfundível. Sem nenhum esforço, me reportei à infância: a mãe sempre tinhas galhos de louro próximo do fogão à lenha. Quando nos servíamos de feijão, encontrávamos a folha de louro. Dificilmente a feijoada não continha uma ou mais folhas. A árvore de louro era podada anualmente, para garantir novas e verdejantes ramagens.

Tenho lembrado seguidamente da inscrição do cartaz, junto à planta de tempero: ‘é louro, disponível a todos!’ Somente um coração generoso sente vontade de partilhar o que é seu. Pessoas conhecidas disseram que tal senhora é detentora de uma generosidade acima da média. Num tempo de tantas distâncias, de vizinhos que nem se cumprimentam, de gestos assustadores de egoísmo, de muita agressividade entre moradores de um mesmo condomínio, aquela humilde senhora encurtou o caminho: se antecipou e deixou à vista dos passantes que as folhas e galhos de louro estavam à disposição de quem necessitasse. Guardei comigo não apenas o tempero do feijão, que minha mãe preparava de forma incrível, mas também o perfume da bondade e da criatividade distribuído em pequenos gestos. Corações humildes são capazes de muitos milagres. O amor continua inspirando, apesar de uma grande maioria ter simplesmente materializado o coração. Aquela senhora está educando as novas gerações, misturando louro com amor.        

Sobre o autor

Jaime Bettega

Frei capuchinho, natural de Caxias do Sul, RS. Formado em Filosofia, Teologia e Administração de Empresas. Pós-graduado em Gestão de Pessoas e Administração, com enfoque na Espiritualidade nas Organizações, mestre em Ética Organizacional.
 

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