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O Brasil na era da pós-verdade

Miguel Debiasi

 

O termo “pós-verdade” foi eleito em 2016 pelo Dicionário Oxford como a palavra do ano. De acordo com o dicionário o termo pode ser definido como “a ideia de que um fato concreto tem menos significância ou influência do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. O prefixo “pós” transmite a ideia de que a verdade ficou para trás ou em segundo plano. A ideia da não verdade é um mal da era contemporânea a ser superado.

Na história literária o termo “pós-verdade” foi empregado pela primeira vez em 1992, em um artigo do roteirista, dramaturgo e romancista sérvio Steve Tesich publicado na revista The Nation (A Nação). Porém, o jornalista britânico Matthew D’Ancona, colunista do The Guardian (O guardião), tem o mérito de ter sido o primeiro a refletir sobre o tema da “pós-verdade” publicando um livro referente ao assunto. O termo “pós-verdade” ainda é confuso e polêmico na visão dos teóricos. Mas, não deixa dúvida de que a humanidade vive um tempo de questionamento sobre o que pode ser definido como verdade.

A não verdade é algo cotidiano e real que pode ser constatado em publicações e matérias da imprensa, nas postagens das redes sociais. O fato é que as fake news provocam uma guerra diária de desinformações. Parece que a verdade foi derrotada. Contudo, a “pós-verdade” é uma narrativa da desonestidade, da falsidade, alimentada pelo interesse político e ideológico. Sem sombra de dúvida a falsa informação tem por objetivo provocar conflito social e manipular os fatos e acontecimentos. Por conta de interesses obscuros e inferiores vive-se o contexto em que os mentirosos viralizam suas falsas ideias, sobretudo nas redes sociais. Há uma verdadeira avalanche, um tsunami diário de desinformações que circulam na mídia e nas redes sociais.

As fake news são a caracterização da era “pós-verdade”. Trata-se de uma era do confronto da violência e da maldade objetiva e subjetiva pelas falsas informações. Tumultuar o verdadeiro pelo falso com base nos interesses ideológicos, sociais, políticos, econômicos, e nas crenças religiosas não deixa de ser crime contra a opinião pública. A falsa informação interessa apenas aos projetos corporativos de poucos contrapondo-se ao bem comum, do coletivo e da humanidade como uma sociedade planetária.

O fenômeno da era “pós-verdade” pode ser ilustrado por muitas imagens como as da eleição de vários chefes das nações. A eleição presidencial americana de 2016 é o maior exemplo da prática da não verdade. O candidato Donald Trump ficou conhecido mundialmente por usar a prática de fake news em que disseminou informações, dados, números falsos que atingiram a vida pessoal e a honestidade pública dos seus adversários. Muitas das falsas informações divulgadas apelavam até às experiências religiosas e ao terrorismo. Entre as falsidades divulgou-se que Hillary Clinton criou o Estado Islâmico; que o desemprego nos EUA chegava a 42%; que Barack Obama é muçulmano; que o papa Francisco apoiava Trump. Lamentavelmente, grande parcela da população americana, motivada por falsas informações, acabou elegendo um presidente de extrema-direita.

Este método de disseminar falsas informações fez correligionários em todos os cantos do mundo, infelizmente o Brasil está no páreo. O presidente eleito no Brasil atacava diariamente com fake news seus adversários. Admirador de Trump, o presidente denegria a imagem dos adversários colocando-se como guardião da fé e dos valores religiosos com o slogan “Deus acima de tudo”. Em contrapartida, negava-se a debater suas propostas com os adversários, algo imprescindível para o conhecimento e informação da opinião pública. Pior, este método parece estar em pleno vapor com o slogan: Pátria Amada Brasil.

Fica difícil de acreditar que “agora o Brasil está no caminho certo” enquanto retiram-se os direitos da população mais pobre, reduzem-se ao pó os recursos para os serviços públicos básicos, privatizam-se as empresas que geram os maiores lucros do mundo; perseguem-se aqueles que pensam ao contrário; facilita-se a liberação de agrotóxicos rejeitados por outros países; demitem-se os guardas florestais para que latifundiários botem fogo na Amazônia; prega-se um discurso político de ódio; defende-se a tortura e a ditadura como bem para a humanidade. O atual contexto diz que no Brasil tudo vale, até a falsidade, a desinformação.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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