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Nietzsche e o amor ao destino

Gilmar Zampieri

O amor fati é a fórmula de Nietzsche para a vida boa. Amor fati é amor ao destino. Amar o destino é amar e desejar o que se é, não o que se gostaria ser. Amar o destino é viver de tal forma reconciliado consigo mesmo que se tivéssemos a possibilidade de viver incontáveis vidas, desejaríamos vivê-las exatamente igual a atual. É o conceito mais genuíno de felicidade: desejar ser o que se é e não desejar estar em outro lugar senão o que ocupa.

Vida autêntica é o outro nome para o amor fati. A vida inautêntica, por sua vez, é a vida do se: se tivesse tido outras oportunidades; se meus pais; se tivesse vivido em outro lugar; se as condições fossem outras; se, se, se! Viver inautenticamente é viver se desculpando pelo próprio fracasso. Viver autenticamente é assumir o peso da responsabilidade da marca de qualidade da própria vida. Terceirizar a culpa é viver contrário ao amor fati. É claro que é pesado o peso do destino, sobretudo para os perdedores, mas pode ser leve e libertador se bem pensadas as coisas. Por falar em peso, esse é o título de um aforismo de Nietsche, o maior dos pesos, que transcrevo, pois ele é poderoso como uma dinamite e a síntese mais acabada da ideia do amor fati associado ao eterno retorno.

O maior dos pesos. – E se um dia, ou uma noite, um demô­nio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspi­ro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma seqüência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!”: – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demô­nio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”: Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?”, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem con­sigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela? (A Gaia Ciência, § 341).

Esse aforismo é considerado a síntese da ideia da vivência do tempo, conectando dois conceitos: eterno retorno e amor fati. Para Nietzsche a vivência linear do tempo, típica da modernidade e do cristianismo, que diz que o futuro é o que verdadeiramente importa e ele, o futuro, será redentor, é uma fuga e um esvaziamento do único tempo que interessa de fato: o agora, o instante, o presente. Amar o presente e desejá-lo viver, eternamente, de tal forma a não desejar outra vida a não ser a que se leva, é o máximo da entrega psicológica de afirmação da vida como ela é.

Não se iluda, isso não é um convite para a uma pregação de autoajuda. Não. Nietzsche não é adepto a receituários de uma vida positiva, fácil e ingênua. Não. Amar o destino, amar a vida como ela é, amar o presente e a vida é aceitar e amar tanto as alegrias quantos as tristezas, tanto as satisfações quanto as dores e os sofrimentos. Desejar só o que nos agradas, nos apetece, nos dá satisfação e prazer não seria amar o destino, mas amar só o que se gostaria que fosse o destino. E isso geraria desilusões e infelicidades sem fim. Querer outra coisa que não a própria vida e desejar estar em outro lugar que não seja o seu, eis a fórmula da infelicidade.

E o futuro? O futuro e o devir estão entregues as mãos do acaso e ele será desejável da forma que vier, pois nos encontrará de bem com a vida, reconciliados e pacificados conosco mesmos, munidos contra qualquer perturbação da alma.

Isso que vale para uma vida pessoal, valerá para o destino da nação e de um povo? No atual estágio da vida nacional essa é uma interrogação perturbadora. No caso brasileiro, parece que será necessário um esforço pessoal e coletivo para interferir no destino, sem o qual não será possível amá-lo. Ou, se o pior se cumprir, seremos responsáveis por Ele e, portanto, deveríamos nos conformar, resignadamente, sem resistências? Sinto muito Nietzsche, mas Ele não será amado, nessa eu não te seguirei...

 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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