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Analisar é preciso, relativizar não é preciso

Gislaine Marins

 

Bons tempos aqueles em que o problema dos professores era corrigir os erros de regência e concordância verbal. O meu marido diz que sou a promotora das causas perdidas. Eu respondo que entrei na roda para lidar com a correnteza e sempre achei que levaria uns quinhentos anos para ver alguma mudança. Sim, é claro que não verei nenhum resultado perceptível. Isso não significa que as mudanças não estejam em curso.

Analisar é preciso.

Na era digital, o pensamento analógico parece algo anacrônico e no entanto a febre de superficialidade exige que retomemos as lições de base: cabe considerar acausa e a consequência, sem inverter a ordem dos fatores. É preciso tomar em conta essa linearidade, sinteticamente falando. Juridicamente, é mais necessárioainda. Portanto, não é possível justificar um homicídio e minimizar a culpa dos homicidas, apelando para a biografia da vítima, que era claramente desconhecida no momento da “sentença capital”, aliás, pena inexistente no código penal civil brasileiro. Um assassinato nunca é menos cruel pela cor da pele, pelo comprimento da saia, pelo sexo da vítima, por sua classe social, por sua identidade ou qualquer outro traço da sua personalidade fora do contexto em que o fato ocorreu. Uma sociedade ética age consequentemente, agravando a pena pela discriminação na base do crime, e não o contrário.

Relativizar não é preciso.

Além do erro de análise, colocando os fatores fora do lugar, tornou-se comum relativizar os fatos. O comparativismo desenfreado tornou-se uma espécie de praga, que combatemos à custa de sermos chamados de apóstolos da utopia. “Todo mundo compara”, é o que me dizem, como se tentassem me consolar. Consolam, mas não dissuadem.

Exemplo: há alguns anos, uma criança de dois anos foi baleada durante uma operação numa favela e morreupelo disparo de uma arma pertencente à polícia militar. Uma das alegações da defesa dos réus foi que a vítima teria apresentado resistência à autoridade policial, provocando a reação. É absurdo pensar que uma criança de dois anos possa representar uma ameaça? Sim, é absurdo, porque um ser humano nessa idade não possui a força física para opor resistência a um adulto e não tem habilidade nem vigor para sustentar uma arma branca ou de fogo capaz de representar uma ameaça a um agente de segurança pública. Bem: agora pensem na vítima do supermercado em Porto Alegre. Se, contrariando toda lógica e cronologia que a análise exige, convencemo-nos que a biografia de uma vítima pode ser um atenuante para o crime cometido, desconsiderando inclusive o absurdo de usar um elemento do qual os homicidas não tinham conhecimento no momento do crime, bem, então entramos no perigoso caminho da justificação inaceitável. O segundo passo é fazer a justificação seletiva.

A seletividade acontece quando percebemos que seria impossível aplicar o critério da biografia para justificar o assassinato de uma criança de dois anos, enquanto nos parece aceitável aplicá-lo ao assassinato de um homem. Aceita a exceção, tudo é possível de ser relativizado: podemos comparar a morte de negros com a morte de brancos, a morte de homens com a morte de mulheres, a morte de adultos com a morte de crianças, a morte de pobres com a morte de ricos, a morte de idosos com a morte de jovens. Basta usar, de acordo com a ocasião, a exceção que mais convém não para justificar o crime, mas para explicar a nossa incoerência. 

A seletividade está na base das nossas incompreensões, é um erro que começa com a incapacidade de perceber a relação entre causa e consequência, passa pela relativização e culmina com a nossa vergonha. A vergonha de sermos artífices da violência, do escândalo de contribuírmos, com falso bondosismo, para a perpetuação das injustiças que nos assolam. De acordo com o pensamento seletivo, uma jovem de minissaia é vítima do crime que sofre, mas um homem é vítima de uma mulher cruel. Mas o problema não é a minissaia, é a seletividade de quem atenua a violência na sua leitura dos fatos. Nessa mesma linha de pensamento, é aceitável perder os nossos idosos por erros na estratégia de combate à pandemia, é justificável que homossexuais sejam agredidos e que negros sejam mortos no supermercado. Porque quando nos falta análise e sobra relativismo, a seletividade faz brechas vergonhosas para a nossa consciência.

Não tenho muito mais a dizer sobre isso: cabe à justiça fazer o seu curso. Em relação à alusão contida no título, trata-se de um paralelismo com a expressão latina, conhecida em português como “navegar é preciso, viver não é preciso”, imortalizada pelo poeta Fernando Pessoa. A expressão latina é atribuída a Pompeu, que instigava os marinheiros a enfrentarem as águas turbulentas do Mediterrâneo sem temor. Navegar é preciso: que tenhamos a coragem de abordar as linhas tortuosas do nosso pensamento, analisando a fundo e vendo o que há de violento em nós, quando pensamos ser bondosos ao desculpar o que é injustificável. Uma sociedade madura aprende a dar o peso adequado aos erros que comete e a dar a punição adequada aos crimes cometidos. Justificar antes de julgar é deixar-se levar pelo erro apontado no início, colocando as consequências antes das causas. Mais do que isso, é impedir que a sociedade cresça pela capacidade de dar justiça às vítimas, é evitar que a violência seja combatida pelo mal que causa. 

Navegar é preciso para que viver não seja uma eterna incógnita. Hoje temos a oportunidade única de enfrentar com coragem os nossos erros e de repará-los com a maturidade que se espera de uma sociedade eticamente comprometida.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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