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A convenção anual da morte

Gislaine Marins

Recebemos e transmitimos integralmente o comunicado da associação nacional das representantes da morte no nosso país.

Reunidas em convenção anual, as mortes fizeram um balanço e traçaram as metas para o próximo biênio. O encontro foi aberto pela decana da associação, à qual foi prestada uma homenagem pelos cinquenta anos de atuação. No seu currículo, destacou o mestre-de-cerimônias, contam-se centenas de mortos por tortura e a espetacular fama de um número indeterminado de desaparecidos: a morte sem registros e sem corpos consegue ser mais tenebrosa do que a morte diante dos nossos olhos, com velório e manifestações de dor dos parentes e amigos.

Em seguida, tomou a palavra a morte violenta, como membro da atual diretoria. Após a apresentação das estatísticas, como previsto pelo estatuto, lamentou o fato de não receber a devida atenção nos últimos meses. A morte por doenças tratáveis pediu um aparte para manifestar a sua discordância: no seu caso, a indiferença é trunfo, que intensifica o significado da sua obra. A assembleia concordou que a publicidade nem sempre é um fator favorável à morte, há circunstâncias em que a naturalização do fato torna a morte ainda mais triunfante.

Por fim, passou-se ao debate sobre o momento atual. A morte por covid mostrou-se satisfeita pelos resultados alcançados até agora. A reação insensata da população, as desmedidas governamentais e a repercussão nos meios de comunicação tornaram a morte por covid um grande sucesso. Além disso, a possibilidade de que haja muitos mais mortos do que as estatísticas oficiais têm mostrado coloca a morte por covid em direta competição com a decana da associação. Apesar de se tratar de circunstâncias diferentes, observou o relator da convenção, não há dúvida de que a subnotificação alimenta o mistério, o descrédito, a indiferença, o destemor dos desinformados e a vitória dos arautos das fatalidades. A morte segue sendo vista como algo inevitável e invencível, prevalece sobre a ciência e o conhecimento como armas para defender a coletividade e reforça a ideia de que o mundo é um palco de guerra, onde o poder e o dinheiro estão acima de todas as vidas.

Nas colocações finais, os participantes concordaram que a morte brasileira estará bem representada no congresso internacional deste ano e que o Brasil mostra mais uma vez que é capaz de estar nos primeiros lugares no mundo. Com o avanço do desmantelamento do sistema público de saúde, a perspectiva para os próximos anos é de que as mortes prematuras aumentem ainda mais e a expectativa de vida retorne para patamares reduzidos. A morte acredita estar fazendo um grande serviço para os cofres públicos, já que é provável que a maioria das pessoas morra antes de alcançar a idade para usufruir dos benefícios da aposentadoria.

O comunicado foi enviado às autoridades, na esperança de que os grandes esforços empreendidos recebam o devido reconhecimento. O mercado também foi informado sobre as deliberações, mas os sócios sabem que se trata de um interlocutor inconfiável: jamais irá divulgar o quanto ganha com o trabalho sistemático que a morte realiza.

Nos bastidores da convenção houve murmúrios de que o espetáculo organizado para o coquetel de confraternização no encerramento não foi bem recebido, porque o músico era desafinado.

O relato corresponde à realidade. Qualquer semelhança com fatos ou personagens ficcionais é mera coincidência.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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