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Um ano de uma nova realidade: O olhar de quem cuida incansavelmente

por Eduardo Cover Godinho

Giovani Sgarbossa, enfermeiro responsável pela equipe técnica do Hospital Manoel Francisco Guerreiro, conversa com a gente e conta como está a realidade de trabalho dos enfermeiros e técnicos de enfermagem.

Os profissionais da área da saúde, sem sombra de dúvidas, são aqueles que desde o primeiro momento em que o mundo se viu em uma pandemia, tiveram sua realidade totalmente modificada.

Uma nova rotina de trabalho. Uma doença totalmente nova para tratar. Novos equipamentos de proteção. Mais horas de trabalho. Um medo do desconhecido. Uma fonte de esperança aos pacientes. Esse tem sido o exercício dos profissionais da saúde.

A área de enfermagem, responsável pelo cuidado dos pacientes, tem sido uma das mais exaustivas e, ao mesmo tempo, importantes nesse período. Afinal, o médico é quem avalia, faz o diagnóstico e prescreve. A equipe de enfermagem é quem executa, quem administra medicação e monitora. São 24 horas ao lado do paciente.

Desde o começo da pandemia, algumas mudanças foram impostas na rotina de trabalho destes profissionais. Desde o uso de EPI’s como máscara em tempo integral, luvas, óculos e até mesmo avental impermeável, principalmente durante o atendimento dos pacientes contaminados. Além disso, muitos tiveram um aumento considerável na carga horária.

Giovani Sgarbossa, enfermeiro e gerente da equipe de enfermagem do Hospital Manoel Francisco Guerreiro comenta que esses cuidados são tomados em toda a extensão hospitalar: “Todo paciente que é atendido pode ser um potencial portador do vírus. Ele pode ser assintomático, por exemplo. Então a mudança aconteceu em todo o hospital, não somente na ala Covid”.

Com o avanço da vacinação, o quadro de profissionais da saúde do Hospital Manoel Francisco Guerreiro está praticamente 100% vacinado, alguns poucos profissionais ainda precisam receber a segunda dose do imunizante. Para eles, isso significa um pouco mais de segurança na rotina de trabalho, mas o cuidado ainda permanece intenso, pois ainda é cedo.

Antes da pandemia, Sgarbossa conta que ao chegar em casa após sua jornada de trabalho, lavava as mãos e o rosto e isso era suficiente. Hoje, com o medo de levar o vírus para sua esposa e filhas, a rotina fora do ambiente hospitalar também requer cuidados especiais. Mesmo que não se realize grandes reuniões familiares e festas, o convívio com o núcleo familiar, normalmente, acaba tendo contato com pessoas idosas e, por mais que se utilize máscaras, ainda existe o receio do contágio ocorrer.

Cuidar de vidas

Sgarbossa conta que a pandemia ainda é uma incógnita. Em alguns momentos em que a equipe técnica imaginava que se teria um grande aumento no número de casos, como na época pós-festas de final de ano, não houve. Em outros, como final do mês de fevereiro e início de março, onde não se esperava um índice tão alto, o Hospital de Guaporé registrou seu ápice de internações e o número de casos ativos chegou a 211, de acordo com o boletim epidemiológico divulgado em 02 de março, o maior desde o começo da pandemia na cidade.

O Hospital de Guaporé é de baixa e média complexidade, não há Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), mas diante das necessidades apresentadas ao longo da pandemia, uma espécie de UTI foi montada para atender os pacientes que aguardavam transferência para hospitais de maior complexidade. Quatro leitos foram equipados com ventilação mecânica.

Sgarbossa diz que uma das situações que mais entristece a equipe técnica é saber que alguns pacientes poderiam ter sido salvos se recebessem o tratamento mais adequado, se fossem transferidos no momento certo para uma UTI. Talvez nem todos teriam sobrevivido, mas o índice de letalidade poderia ser menor se todos tivessem a oportunidade de ao menos tentar recorrer a esse recurso.

Nos últimos dias, em um reflexo do que acontece no país inteiro, Guaporé registrar um aumento no número de casos confirmados, mais uma vez. Há semanas o município mantinha uma média de 20 a 30 casos ativos, porém no último boletim epidemiológico, divulgado na terça-feira, 25, o número subiu para 165 e junto com ele, as internações também cresceram.

Um fato que chama a atenção da equipe técnica é que a faixa-etária dos pacientes internados diminuiu. Antes, a maioria das pessoas que buscavam atendimento médico era de idosos. Hoje, os pacientes internados têm, em média, entre 20 e 40 anos.

Psicológico

Os profissionais da saúde, imersos nesse ambiente hospitalar, já estavam habituados a lidar com situações difíceis e, eventualmente, perdas de pacientes em decorrência das mais diversas causas.

O fator pandemia não anula os demais casos rotineiros do hospital, mas sim, soma ainda mais esforços à demanda da equipe. “A gente procura ser forte porque as pessoas precisam da nossa ajuda. Nós temos o apoio da instituição, suporte com psicólogos e para quem busca auxílios, eu como gestor da equipe de enfermagem, os encaminho. É cansativo todo esse tempo de pandemia, mas a equipe está respondendo bem”, comenta Giovani Sgarbossa.

Lidar com a perda de pacientes também não é tarefa fácil aos profissionais. Para eles, o esperado é que os pacientes sempre tenham o ciclo completo: internação, tratamento, evolução e alta. Entretanto, algumas vidas se perdem no meio do caminho. Alguns óbitos em decorrência de acidentes, por doenças das mais variadas e, agora, por Covid-19.

O Hospital de Guaporé, em março deste ano, chegou a ter quatro pacientes em ventilação mecânica, uma situação nunca vivida na unidade e a equipe teve de aprender na prática a lidar com essa realidade: “são pacientes críticos, que demandam muita atenção, nesse pior momento é que a gente precisa assumir essa responsabilidade, não podemos fugir da luta e desistir. Sabemos das perdas, todo paciente tem uma história, uma família, mas a gente precisa levantar a cabeça porque o hospital não pode parar”, finalizou Sgarbossa.

 

Texto: Letícia Brignol

Central de Conteúdo Unidade Aurora

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