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Uma outra vida é possível para um cristão

Miguel Debiasi

 

O desejo é uma porta que se abre para entendermos o ser humano. A busca pela felicidade é uma outra fenda que se abre para compreendermos o comportamento humano. A ganância, o poder, o ódio podem ser outros caminhos para compreendermos os sentimentos e as atitudes dos seres humanos. Estas dimensões podem oferecer-nos muitos elementos de compreensão do ser humano, em vista de sua maior humanização.

Em novembro passado o jovem João Alberto foi espancado e morto em uma unidade do Carrefour na cidade de Porto Alegre/RS. Ato bárbaro praticado por servidores do Carrefour conforme registra as câmeras de segurança da unidade. Em poucas horas as imagens do ato bestial percorreram o mundo provocando indignação e manifestações populares contra o racismo e exigindo a punição dos assassinos e responsáveis pela unidade do Carrefour. Talvez o racismo nunca venha ser erradicado e os culpados pela morte de João Alberto não sejam condenados. Com o passar dos dias o sangue derramado e os vitimados cairão no esquecimento. É bem provável que os proprietários do Carrefour não respondam ética e judicialmente pela morte de João Alberto perante a justiça. Ainda, não surpreenderia a opinião pública se a unidade do Carrefour continuasse explorando seus negócios sem receber alguma notificação ou advertência do poder público.

Para o capitalismo selvagem a vida humana negra parece não importar. Mercado, dinheiro, lucro estão em primeiro lugar na escala de valores do capitalismo. Os preços abusivos dos produtos de alimentação e de primeira necessidade são um sinal eloquente que a vida humana vale menos que uma mercadoria. O capital tornou-se sagrado e a vida humana descartável. A hipervalorizarão do dinheiro e do capital tem provocado violências e banalização da vida humana exterminando inocentes a luz do dia. A cobiça é o combustível que move os capitalistas, e para estes o capital tornou-se sagrado e inegociável.

Para um autêntico cristão o mais sagrado é a vida humana e preservada em sua dignidade. Os bens e as posses estão para servir a vida humana. A ética cristã defende que nenhuma pessoa pode ser privada e marginalizada pela cor de sua pele e pela sua situação social. O Cristo de Nazaré, jamais exclui alguém do seu amor. Por amor, aproximou-se dos doentes, pobres, pecadores, excluídos, marginalizados da sociedade. Toda palavra e ação de Jesus Cristo é compilada nas bem-aventuranças e que iluminam todas as relações humanas. Também, denunciam toda forma de exploração, racismo, intolerância, ganância, cobiça, avareza. O capitalismo se move pelo consumo. Para haver felicidade é preciso consumir. Alcança-se a sociabilidade e a felicidade pelo consumo, em contrário, nada somos.

Já para um cristão as bem-aventuranças de Jesus (Mateus 5,1-12; Lucas 6,20-23) indica como devem ser vividas a vida e as relações humanas. Com base no Evangelho de Mateus e Lucas, a pobreza, o sofrimento, ter fome e sede de justiça, ser perseguido, insultado, caluniado, à primeira vista parece-nos situações limites e oposto da felicidade. Obviamente, ensina Jesus que estas situações precisam ser evitadas e superadas para haver felicidade. Deus não se alegra e tem prazer nestas situações de limites e de risco da vida humana. O estranho para Jesus é que os ricos não percebam o sofrimento que essas situações causam aos seres humanos. E por isso, Jesus ensina que os bem-aventurados são as pessoas que valorizam a vida não com base nos bens e posses, mas na convivência e nas relações humanas fraternas voltadas no bem do outro, do próximo. Segundo o Papa Francisco, as bem-aventuranças são a carteira de identidade do cristão, que o identifica como seguidor de Jesus, porque elas são o Perfil de Cristo.

A cada situação de pobreza, sofrimento, fome, sede, intolerância, racismo, cobiça, clamam pela mensagem das bem-aventuranças que é possível uma outra vida.         O teólogo francês René Girard escreve que a raiz de toda violência e todo sofrimento humano é o desejo de cobiçar sempre mais, indiferente da situação do outro e dos outros. Sem generalização, para um capitalista o maior valor é acumular cada vez mais. As bem-aventuranças se praticadas pelos cristãos é um contrapor-se as situações e todo ato de desumanidade, como do racismo e da pobreza. A desumanidade é fruto do capital sobrepor-se a vida humana. Jesus no alto da montanha diante de uma multidão de famintos, excluídos, insultados, marginalizados ensina que é necessário uma opção pela vida humana, com base no amor, no respeito ao outro e na partilha dos bens e das posses.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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