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Saber fazer

Miguel Debiasi

Em épocas de mudança cultural surgem novas ideias, novos enfoques, novas linguagens, novos conceitos. A transição de época demanda a todos novos saberes, hábitos e novas competências, novas posturas. Além de conhecer e pensar nos “novos” e nas “novas”, exige-se aprender fazer, fundado na racionalidade construtora de uma civilização integrada aos ecossistemas e ao universo como um todo. O aprender fazer é oficio dessa época em contínua transição.

“Se o presente se anuncia no futuro, já estamos a construí-lo com o que fazemos”, escreve o sacerdote jesuíta e teólogo João Batista Libanio. A essência do fazer está na perspectiva da evolução da história. Então, por um lado, o ser humano é inserido no tempo e no espaço da civilização contemporânea pela qualidade do fazer influencia o futuro e sua direção. E, por outro, a compreensão da perspectiva histórica ilumina o indivíduo em sua realidade e no seu modo de agir diferente. Em suma, a compreensão da perspectiva histórica dá segurança ao ser humano e validade ao seu fazer em sua globalidade.

O fazer abarca as diversas dimensões do ser humano, como a física, intelectual, ética, simbólica, cultural, estética e outras. Pela prática o ser humano torna-se o sujeito e obreiro que impulsiona a história com sua perspectiva que ultrapassa as dimensões do efêmero e do sensível, do vivencial, do material. O saber fazer desencadeia processos de formação humana e de construção da história na perspectiva em que cada tempo e espaço abrem novos ciclos de vida e novas épocas. No fazer desenvolvem-se processos culturais e o ser humano faz a recepção dos resultados que se efetuaram nas pessoas, nos grupos, nas comunidades, nas classes sociais e no mundo. A história em sua evolução é resultado da ação do ser humano.

O escritor francês-tcheco, Milan Kundera (192), um dos maiores escritores do século XX e autor de celebras obras como - A Brincadeira; o Livro do Riso e do Esquecimento; e A Insustentável Leveza do Ser, escreve: “Sonhar com aquilo que nunca aconteceu é uma das mais profundas necessidades do homem”. Em outros termos, fazer mais é a vontade imprescindível de todos. Libanio argumenta que saber fazer é colocar-se num movimento histórico em que o presente assume uma instância crítica ao passado. Lembra-nos que é da ciência moderna a crítica ao passado porque pretende melhor fazer no presente. O filósofo brasileiro e padre jesuíta, Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921-2002), argumenta no sentido da “consciência histórica”, como “consciência da história” revela a original historicidade da consciência ou sua abertura para o ser-no-tempo. A consciência histórica está no coração do aprender a fazer. E aprender a fazer cria consciência histórica. A consciência histórica é a instância crítica da ação, do fazer, seja como racionalidade e ou ato da vida concreta. Logo, consciência e história não se separam ambas se constroem numa mútua relação.

A modernidade não pode provocar um bloqueio da consciência histórica, ou da historicidade crítica, diz Lima Vaz. Para Libanio o saber fazer é transformador e crítico. O teólogo e filósofo brasileiro Clodovis Boff (1944) compreende a práxis ou a prática no sentido largo de toda atividade humana transformadora do mundo. A práxis transformadora inclui sempre sua teoria, suas razões, suas motivações, suas finalidades e outras. Em nosso tempo as pessoas sofrem a tendência do mercado que é incorporar mais conhecimento técnico para o trabalho e menos consciência histórica ou historicidade crítica. Nossa época exige pessoas mais preparadas e menos críticas e transformadoras. Setores como da indústria, comércio, agricultura e outros a tempo sentem a falta de pessoas preparadas para o trabalho e não de consciências críticas da realidade.

Atualmente o Brasil tem a 4ª maior taxa de desemprego do mundo. Aproximadamente 20 Milhões de pessoas estão na linha de espera por um trabalho. E os recursos do governo federal e estadual empenhados para cursos de qualificação de mão-de-obra são pífios. Programas governamentais para suprir as necessidades de qualificação inexistem, falta o saber fazer. Para termos excelentes profissionais exige vontade política e oferta de qualificado ensino. No período industrial trabalhar exige além de qualificação profissional, conhecimento e consciência histórica. Esta necessidade exige a criação de políticas públicas de formação de profissionais que saibam fazer, desenvolvendo capacidades criativas e consciências que geram perspectiva histórica transformadora. Saber fazer requer consciência histórica crítica, competência, eficácia, produtividade, reconhecimento social e humano. Se isto vier acontecer em nosso país todos ganham no presente e no futuro é a esperança dos desempregados.

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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