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O pão nosso de cada dia...

Vanildo Luis Zugno

O que é religião? Pergunta instigante que já encontrou muitas respostas e continua a suscitar dúvidas e controvérsias. Difícil encontrar uma definição de consenso. A paleta de opções vai desde o considerar a religião como “ópio do povo” até a de proclamá-la como aquela que dá o “sentido último” a cada cultura e, dentro dela, à existência de cada grupo ou pessoa.

No fundo, creio que as duas visões não se contradizem. Pelo contrário, elas se complementam na medida em que indicam as duas possibilidades extremas da experiência humana. Com efeito, a religião pode levar a pessoa ao extremo da realização ou ao extremo da perversão. Porque religião – e aqui avanço uma possível definição de religião – é o conjunto de crenças, ritos, valores, normas e instituições – que prometem levar o ser humano à sua realização plena.

Evito aqui intencionalmente a palavra “transcendente”. No uso habitual, “transcendente” indica algo que não é deste mundo. Mas nem todas as religiões tem como meta conduzir as pessoas para um outro mundo futuro ou a um mundo paralelo ao mundo presente. Existem, sim, religiões que podem ser assim caracterizadas. Mas há sistemas religiosos que são marcadamente mundanos. Ou seja, prometem a salvação para este mundo mesmo, aqui e agora. E se não for agora, num futuro breve que está ao alcance da mão de todos. Pensemos na chamada “religião do mercado”. Basta você seguir as “leis do mercado”, seus ritos, seus valores, normas e instituições e, em pouco tempo, você terá sucesso e ficará rico.

É uma religião que tem seus livros sagrados e seus sacerdotes que, dominicalmente, tentam convencer as pessoas de que pequenas empresas podem se transformar em grandes negócios. Basta seguir a orientação dos empreendedores bem sucedidos que, por sua relação íntima com o Deus Mercado, agora têm a capacidade de guiar os que se convertem à nova religião. Os que fracassaram, é porque não tiveram fé suficiente nas eternas leis do mercado, não seguiram seus ritos e instituições ou não quiseram ouvir seus sacerdotes. Ou foram fracos e impersistentes. Pois na religião do Deus Mercado, só se salvam os mais fortes. Os fracos, são engolidos na voragem da luta pela sobrevivência. Por essas suas faltas, os fracassados já pagam no presente com o colapso de seus empreendimentos e ficarão para sempre gemendo e chorando no vale de lágrimas da pobreza, pois na religião do Deus Mercado não há graça. Aqui se faz, aqui se pena. Quem pode mais, chora menos. E são poucos os que se salvam.

Mas, e no cristianismo, como funciona a salvação? Qual é a meta do ser mais, de alcançar a plenitude do ser humano? Faço esta pergunta pensando na oração que Jesus ensinou a seus discípulos. Afinal, a oração é a expressão máxima dos desejos e promessas de uma religião. Nela, o fiel pede a Deus aquilo que mais almeja. E o que Jesus ensina a pedir no Pai Nosso? Coisas muito simples e mundanas. Em primeiro lugar, a justiça para os fracos. Era isso que a palavra Reino significava para um judeu: que o órfão, a viúva e o estrangeiro tivessem seus direitos respeitados. Pede o pão para o dia de hoje. Não pede riqueza, nem o acúmulo de bens. Basta a comida para satisfazer a necessidade presente e urgente. Pede o perdão das dívidas... Para o pobre, o mais cruel é estar devendo, pois o único que tem é a sua honra. E essa não tem preço!

E a oração termina com um “não nos deixes cair em tentação”. Mas não diz qual é a tentação. Pelo contexto anterior, sou levado a pensar que a tentação da qual Jesus nos ensina a pedir a Deus que nos livre, é a de não perdoar os que nos devem, de acumular o pão a tal ponto que a outros falte, de não fazer justiça para com os fracos e assim não acreditar que Deus é Pai de todos.

Estranha oração essa a do Pai Nosso. Ela revela uma religião dos fracos, dos fracassados, dos derrotados, dos endividados... que sonham com um mundo em que as relações não sejam marcadas pela dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. Um mundo onde não haja vencedores nem vencidos, nem saciados nem esfaimados, nem credores e nem endividados.

Rezar o Pai Nosso, é comprometer-se com essa crença. E um desafio a cultivar valores e constituir normas e instituições que ajudem a forjar um mundo novo tal qual o rezado nesta oração tão simples e, ao mesmo tempo, tão transformadora.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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