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Exercício Pinteresco

Gislaine Marins

Senhores, o mestre pede silêncio.

Esses dias li um crítico que afirmava que os silêncios nas peças teatrais de Harold Pinter às vezes não são justificados. O crítico não compreendeu que os silêncios de Pinter gritam. O silêncio é a sua forma de provocação. O público fica nervoso, impaciente. Somos colocados à prova da suportação.

Estava relendo a peça “O Quarto” e à minha cabeça outros textos pareciam reivindicar o seu direito à lembrança e à palavra. Um deles é “Viagem ao redor do meu quarto”, que Xavier de Maistre escreveu com a pena da ironia enquanto cumpria uma prisão domiciliar em Turim. Confinado, a viagem ocorre de maneira imaginária, como têm feito muitas pessoas também hoje ao longo da quarentena. É o sair sem sair fisicamente do lugar. O Quarto de Pinter é de tipo totalmente diferente: tenso, angustiante, opressivo. O casal Hudd possui apenas na aparência uma vida normal dentro das quatro paredes do quarto alugado em que moram. De nada vale a rotina culinária: nas entrelinhas dos diálogos percebe-se um mundo, composto por outros quartos, controles, umidade, a tubulação que interliga toda a casa, o proprietário que controla tudo. Fiquei supresa ao descobrir que O Quarto foi traduzido e encenado por Roberto Alvim: ou ele não sabia o que estava traduzindo ou não entendeu o que traduziu. O silêncio de Pinter não é um exercício pitoresco, uma provocação às regras da cena teatral: é o espaço a ser preenchido por aquilo que todos sabem, mas não dizem. Sobre um mundo no qual a opressão dita as regras e o silêncio revela as injustiças. Pinter era um artista no mundo: um mundo absurdo, como o que vivemos hoje. Não há experimentalismo que não corresponda àquilo que realmente não queremos ver. Não por acaso, a Senhora Hudd declara ter ficado cega ao fim da peça. O mestre pede silêncio e nos castiga com a cegueira.

Pinter não é o único que fez isso: muitos séculos antes já tínhamos Édipo, uma trama que sobrepõe família e poder. Édipo também prefere a cegueira à realidade que ele mesmo causou. E depois de Pinter tivemos uma autora portuguesa, Maria Velho da Costa, que emudeceu a sua personagem Maina Mendes para dar mais peso ao drama da sua vida.

Silêncio, senhoras e senhores, a realidade está dando um espetáculo atroz. Os invisíveis expostos nas favelas à toda sorte de perigo e exploração não têm o seu dramaturgo para narrar o nosso cortiço contemporâneo. Não há nem mesmo um Deus ex macchina que forneça uma solução improvável: temos apenas bufões que prometem curas milagrosas e sem nenhuma fundamentação. O nome do nosso remédio é: ao Deus dará.

De tudo aquilo que não se diz e não se escreve temos de tomar nota: são os pontos mais preciosos da história não contada. A tarefa é enorme e o grito contido pede justiça ao futuro.

Enquanto isso, a desigualdade cria caminhos, a morte abre covas, o ódio apodrece os corações. Tudo é matéria que engolimos com lágrimas mudas e a persistência de quem acredita no germinar dos sonhos. O silêncio não é pitoresco, é provisório. Depois da dor e do luto, haverá um tempo de palavras e ações: um tempo que requer uma capacidade aguda de leitura a fim de que o mergulho na realidade não se transforme no naufrágio da última esperança. É preciso ler as linhas e o não dito para retomar o fôlego e a capacidade de recriar. Como um exercício pinteresco.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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