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Espantos

Gislaine Marins

O homem não é a única espécie social do reino animal. As formigas, os elefantes, os macacos, as abelhas, os cupins, as renas, os lobos e muitas outras espécies também são. O espírito de sobrevivência estimula a cooperação entre os animais sociais, estimula a sua economia.

Todos sabemos, por exemplo, que as formigas aglomeram nutrientes durante a estação quente para superar o inverno. Existe uma economia da sobrevivência: um ciclo de acumulação e administração dos recursos. Desde a Antiguidade, este modelo tem sido utilizado como virtude, retomado em fábulas e anedotas. Mas a pergunta é: devemos nos limitar a isso? Com todo o progresso tecnológico e humano, devemos ficar atrelados à economia da sobrevivência?

Não sou economista, mas todo processo possui uma “economia”, ou seja, uma dinâmica na qual podemos observar como os fatos evoluem e produzem consequências. Se os economistas são especialistas em tudo e diagnosticam o complexo mais amplo da organização social para o proveito e a sobrevivência da sociedade, os literatos são mestres na arte das possibilidades. Trabalhar com hipóteses é uma missão. Onde a probabilidade nos limita, os limites nos desafiam. Literatos possuem a ambição de levar o humano além da mera sobrevivência. O literato aspira à cultura, ao conhecimento, ao futuro, às descobertas, ao que nem podemos imaginar, mas devemos supor para dizer que valeu a pena fazer algo mais do que simplesmente sobreviver. Literatos alimentam os sonhos, o desejo de uma humanidade capaz de explorar todas as suas potencialidades.

Não nos consola a condição de animais sociais. Não nos resigna a morte trágica. Um literato sempre dirá: como é possível esse epílogo, se as personagens podiam dar um outro desfecho com os dados que tinham à disposição? Literatos não gostam de histórias banais, de finais óbvios, de sujeitos que se deixam levar ao sabor dos ventos, passivamente, sem opinião própria. Literatos sugerem a leitura das entrelinhas, a intuição do fim da história antes mesmo que o autor tenha dado as pistas mais explícitas do que está por acontecer. Literatos estimulam continuamente a nossa capacidade de descobrir espantos na trivialidade, a não ser previsíveis como carneiros e nem mecanicamente ordenados como formigas.

Durante a quarentena, descobri aranhas vermelhas minúsculas no terraço do meu prédio. Vi papagaios voando tranquilamente diante da minha janela. Observei a transformação das minhas plantas e a mudança de humor do meu cachorro. Isso é surpreendente, mas não é fundamental, porque a nossa capacidade de imaginar o mundo não deve ser um exercício das formas pitorescas, não pode ser uma enciclopédia de curiosidades. O importante é pensar: como será o mundo daqui para frente?

Muitos, tenho certeza, infelizmente, continuarão a perseguir a sobrevivência como único caminho possível e disponível. Outros pensarão em um novo mundo, numa nova relação entre as pessoas e novas formas de economia, capazes de permitir a valorização da nossa criatividade, dos nossos avanços tecnológicos e científicos a favor da coletividade. Outros, detentores da responsabilidade de propor as políticas públicas, como as abelhas-rainhas, terão a relevante tarefa de propor soluções coletivas. Se pensarem como abelhas, poderemos esperar no máximo, a sobrevivência. Se forem sábios, podemos esperar ouvidos atentos, disponibilidade para acolher os progressos da humanidade e a formulação de projetos que transformem o nosso mundo em um lugar mais humano, digno, ético.

Há muitos finais possíveis para a nossa história. Nada está perdido. Não existe economia que não possa ser retomada. Apenas uma coisa é irremediável, essa palavra que não queremos pronunciar. Essa palavra que interrompe sonhos e possibilidades. Essa palavra que assinala a nossa falência diante das inúmeras possibilidades que a vida oferece. Essa palavra que revela a nossa derrota como sujeitos da nossa própria história e que às vezes determina o destino de muitos.

Há muitas formas de experimentarmos o espanto. Reinventando o que já conhecemos, descobrindo algo novo, ou sendo arrastados inexoravelmente para um destino trágico, cujos sinais não quisemos considerar. A negação das evidências, das hipóteses e teorias à nossa disposição leva a isso: a uma tragédia evitável, a uma resignação injustificável, à aceitação da nossa vida como mera sobrevivência e não como uma oportunidade inigualável em todo o reino animal. É algo realmente espantoso.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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