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A matança dos inocentes (Mateus 2,13-23)

Miguel Debiasi

A matança dos inocentes (Mateus 2,13-23)

Em 1991 foi lançado o filme “O Silêncio dos Inocentes”, que teve sua genialidade reconhecida pelos críticos de cinema por ganhar as cinco estatuetas consideradas principais do Oscar: Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro Adaptado. O filme conta a história da personagem fictícia Clarice Starling, interpretada pela brilhante Jodie Foster, uma agente novata do FBI que teve a missão de entrevistar um terrível criminoso, o canibal Hannibal Lecter, em busca de pistas sobre outro assassino ainda à solta. O filme nos permite olhar para alguns casos de assassinatos no Brasil.

            Um dos casos é o assassinato do músico Evaldo dos Santos Rosa, que em 7 de abril teve seu carro, no qual estava com sua família, alvejado por 80 tiros de fuzil disparados por militares do Estado do Rio de Janeiro, no bairro Guadalupe. Na ação da polícia militar veio a óbito o músico Evaldo e o catador de material reciclável Luciano Macedo. A explicação dos militares para o fuzilamento de dois inocentes foi “bandidos atiraram no carro”. Mas a versão foi desmentida pelas câmaras de vídeo instaladas na avenida, mostrando inexistência de outros atiradores. A brutalidade do assassinato repercutiu em nível nacional ao ponto do conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos de São Paulo, Ariel de Castro Alves criticar a proposta “anticrime” do ministro da justiça e da segurança pública, Sérgio Moro: “a proposta do ministro de ampliar as excludentes de ilicitude legitima execuções e extermínio praticados por policiais, seguranças, militares do exército, é uma lei de abate de pobres”.

Em contrapartida, o ministro Sérgio Moro, autor da “lei anticrime” que permite pleno uso de armas de fogo mais pesadas contra os criminosos, justificou o fato do assassinato: “foi um incidente bastante trágico. É algo que pode acontecer”. Por falta de medidas cabíveis das autoridades, Aquiles Lins, do Jornalistas pela Democracia, criticou o silêncio e a postura do Presidente da República Jair Bolsonaro, do vice Hamilton Mourão e do ministro Sérgio Moro sobre a execução brutal do músico negro Evaldo Rosa dos Santos e do catador Luciano Macedo: “quando autoridades públicas deste porte não condenam um assassinato brutal como este, significa dizer que concordam com ele”. E acrescentou: “É óbvio ululante que uma ação de execução sumária desta magnitude contra um homem negro que levava a família a um chá de bebê, está amparada no discurso de apologia às armas, de defesa do assassinato, de desprezo pela vida. Aliás, já não há apreço pela vida no estado brasileiro há muito tempo”.

Outro caso de assassinato brutal pela polícia militar do Rio de Janeiro é do professor de jiu-jitsu, Jean Silva, do Complexo do Alemão. A mãe de Jean, Sandra Mara, aos prantos disse: “Jean é inocente. Jean é inocente. Jean é inocente”. Em profunda comoção protestou contra a política de segurança do governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel: “até quando a polícia de Witzel vai continuar matando por engano?”. Ainda, segundo dados dos órgãos públicos do estado do Rio de Janeiro, em cinco meses de governo de Witzel os assassinatos aumentaram em 31%.

Além da dor de familiares pelo assassinato de inocentes, cidadãos honestos, pessoas empobrecidas, negros excluídos, é de lamentar a inoperância das autoridades responsáveis pela segurança pública e pela não investigação dos fatos. Ademais, passados cinco dias do assassinato do músico, o presidente da república disse em entrevista a jornalistas em Macapá: “o Exército não matou ninguém. O Exército é do povo. Houve um incidente. Houve uma morte. Lamentamos ser um cidadão trabalhador, honesto, está sendo apurada a responsabilidade”. Soma-se ao desprezo das autoridades com famílias vitimadas o que a viúva do coronel Carlos Brilhante Ustra, que comandou o Doi-Codi de São Paulo durante a ditadura militar postou no Facebook: "Perfeita a resposta do presidente", sobre a declaração dele “O Exército não matou ninguém. Foi um incidente”.

Por sua vez, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), fez um alerta de que o país corre sério risco de enfrentar uma ditadura militar: “crescem na prática os sinais de um Estado militar e policialesco no Brasil. Tiros, armas, a ideia de que somente militares nos salvarão, violência e ódio para todos os lados, o suposto horror à velha política”.

Além do lastimável número crescente de assassinatos de inocentes pelo Brasil há o silêncio e a negligência das autoridades responsáveis com a morte de cidadãos pobres, negros, favelados. A matança dos inocentes corre livremente pelo país. Pior, sem a condenação dos responsáveis.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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