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A Gula

Gilmar Zampieri

 

A gula é o pecado contra a temperança. A temperança é uma virtude. A gula é um vício. A temperança é a virtude da moderação, da justa medida. A gula é o destempero, o excesso, a perda total das medidas. A temperança é esbelta, a gula é obesa. Mas, haverá pecado em fazer o que é natural como saciar a fome no ato de comer? Jesus não disse, definitivamente, que não é o que entra pela boca que torna alguém impuro e pecaminoso. Logo, parece que a gula não pode ser pecado...! Será?

A fome não tem reinvindicações além da conta, apenas quer ser saciada. Quando saciada, sossega. A gula, não. A gula é gulosa, insaciável. A fome quando saciada, feliz está. O triste prazer da gula vive atormentando a alma na ânsia desesperadora da vontade de comer lá onde já não há fome. A fome é o clamor do corpo para a manutenção da vida. Não há porque julgar culpada a fome e, muito menos, a comida e a bebida que a aplacam. Não há pecado na fome, se não for forçada e provocada pelo pecado da avareza de alguns e não há pecado no ato de comer para “matar” a fome para que ela não nos mate. Tanto a fome quanto o comer são naturais e necessários, logo, além do bem e do mal. De onde vem, então, o pecado?

Tomás de Aquino, um simpático gordinho que sistematizou os sete pecados capitais, define a gula assim: “A gula é o apetite desordenado de comer e de beber”. O apetite é desordenado se for contra a reta razão, diz Aquino e todo excesso é contra a reta razão e as virtudes. E a gula é excesso. Se não fosse pelo excesso, teríamos que admitir que haveria pecado no prazer de comer, mas, convenhamos, não pode haver pecado no prazer. Se o prazer fosse pecado, então, Deus seria culpado, pois foi ele que muniu o corpo humano com os cinco sentidos e, dentro destes, o paladar. E é dos sentidos que advém os mais intensos dos prazeres. Alguns preferem os prazeres artísticos e intelectuais e até os consideram superiores, mas, só alguns!

Não há pecado no prazer, só há pecado no excesso.

Mas, que mal há em comer e beber um pouco além da conta? Vivemos tempos em que a gastronomia virou uma ciência e a descoberta de uma nova receita contribui mais para a felicidade dos humanos do que a descoberta de um novo planeta. Então, não seria apenas um “desmancha prazeres” essa conversa de pecado da gula? Sim e não. Sobretudo, não. A questão remete, hoje, além da questão moral e teológica, para problemas de ordem fisiológica e de saúde. E, convenhamos, as duas dimensões, da saúde e da moral, são reais, sérias e causam estragos.

Do ponto de vista da saúde do corpo, o “comer além da conta”, provocado pela gula, é desastroso tanto para a estética e auto estima, sobretudo num tempo da ditadura do corpo perfeito, sarado e magro, quanto para a saúde. Parece não haver contestação quanto ao fato que já se morre mais de obesidade do que de fome. Isso é impressionante! A gula não só causa doenças, como efeito colateral, mas provoca, também, a morte. A pergunta que se impõe é: é possível ser guloso por brócolis, por frutas, verduras e legumes? Difícil. E por doces e carnes? Fácil, muito fácil. Então, a virtude está em conter o desejo diante do, naturalmente, apetitoso e prazeroso...! Não há virtude em comer verduras e legumes moderadamente...! Assim, ao que parece, também não há pecado da “tentação vegetal”. Aí está uma boa razão para os moralistas virarem vegetarianos...! Moralistas de todo mundo, uni-vos, contra a carne e os derivados do leite e ovos...! Além de tudo, prestarão um serviço à causa ecológica...!

Isso tudo é nobre, contudo, o mais importante, do ponto de vista do pecado capital da gula, não está na ordem da saúde física, mas na ordem da saúde moral e espiritual. O pecado da gula não incide só sobre o corpo, mas, sobretudo, sobre a alma. Se o corpo do guloso fica desmedido, a alma fica atormentada. A alma atormentada é uma alma sem paz, sem serenidade, em estado de permanente ansiedade. Uma alma atormentada é uma janela aberta para outros pecados. Se a gula for de bebida, pode levar a bebedeira e à perda do controle tanto físico quanto emocional e espiritual. Poderíamos, por hipótese, nos interrogar sobre o que é menos grave, a bebedeira, o estupro ou matar alguém? Se dissermos que é a bebedeira, não percamos de vista que um bêbado pode violentar e matar a um só tempo...!

De fato, a gula enfraquece, moralmente, o ser humano. Ela leva à preguiça, à luxúria, à ira e até à inveja do corpo do outro. Aparentemente é um pecado de segunda categoria, mas, só aparentemente. Ele pode ser um pecado mortal se desviar do fim último, isto é, se o comer e o beber assumirem o lugar de Deus. Nesse caso a comida viraria um ídolo e não haveria porque fazer jejum, pois o jejum seria um pecado contra o ídolo. O guloso venera o próprio ventre como sendo o próprio Deus. Aí reside a essência desse pecado!

Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és, diz a bíblia e a sabedoria popular. Parafraseando o dito popular daria para dizer: diz-me o que comes e dir-te-ei quem és. O que comes e, sobretudo, quanto comes. Coma com moderação. Exagere nos vegetais, seja virtuoso!

 

Sobre o autor

Gilmar Zampieri

Frei capuchinho, Gilmar Zampieri é graduado em Filosofia (UCpel-Pelotas) e Teologia (ESTEF- POA), com mestrado nas duas áreas (PUC-POA). É professor de Ética e Direitos Humanos (Unilasalle Canoas) e de Teologia Fundamental (ESTEF –POA).

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